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When They See Us(2019)

Há um mês | Biografia, Drama, História, |


Antron McCray, Kevin Richardson, Yusef Salaam, Raymond Santana e Korey Wise. Foi a história destes cinco, The Central Park Five, que Ava Duvernay decidiu apresentar ao mundo, através de When They See Us (2019), uma mini-série distribuída pela Netflix. Ava tem no seu reportório filmes como Selma (2014) e o documentário 13th (2016), sobre a 13ª Emenda, tudo projetos focados sobre os direitos humanos, questões sociais e raciais nos Estados Unidos da América. E, com esta mini-série, o tema não foi diferente.

When They See Us conta-nos a história de 5 jovens negros que foram acusados por uma violação que não cometeram. Nisto, acompanhamos todo o processo dos interrogatórios feitos ao jovens que, na altura, eram menores, sendo coagidos a assumirem um crime que não cometeram para serem condenados. 4 episódios que cobrem uma linha temporal que se inicia em 1989 e acaba com absolvição do grupo em 2002. Uma narrativa que nos mostra a crueldade, a desumanidade e a insensibilidade para com os jovens. Declarados culpados sem qualquer tipo de provas, questionários forçados para que os polícias pudessem acrescentar vários pontos na história para os culpabilizar.

Posteriormente, presenciamos a vida deles dentro da prisão, e mais concretamente, a de Korey Wise (Jharrel Jerome) que, por ter 16 anos, não foi com o resto do grupo para a juvenile, acabando por ir para a county prison. Aí compreendemos que ele viveu horrores, sentiu a morte muito perto de si. Sempre acompanhado pelo sofrimento e crueldade que nenhum ser humano deveria passar, muito menos, um miúdo de 16 anos. No fim, já com todos fora da prisão, damos de caras com a dificuldade de reinserção social para os ex-prisioneiros. Mesmo tendo sido absolvidos, considerados inocentes, não deixam de ser rotulados e vistos como criminosos.

Ava DuVernay fez um trabalho excecional ao contar a história. Não há propriamente uma edição espetacular, ou uma fotografia que nos deixe de boca aberta. Simplesmente com o recurso aos tons azuis-escuros que assombram todos os episódios, deixando que a própria narrativa faça o resto. Sendo uma história pesada, triste, que nos deixa revoltados e, talvez, um pouco frustrados. O enredo em nada falha, não deixa pontas soltas ou qualquer tipo de questões. Tomamos contacto com o sistema judicial americano que, mais uma vez, podemos compreender que está corrompido. Olhamos para a brutalidade policial que ainda é visível nos dias de hoje.

Talvez, o único aspeto que pode ter falhado no meio destes quatro episódios é o de não termos mais tempo para acompanhar a luta dos familiares destes 5 rapazes. Eles, estando fora, acabaram por ter um papel crucial para juntarem uma equipa de advogados que lutaram pela inocência do grupo. Senti que esses momentos poderiam ter tido mais foco.

 

A narrativa transparece de uma maneira muito genuína os sentimentos das personagens. Desde o desespero de um pai que pede ao filho para assumir a culpa, por ter medo que ele seja morto pela polícia, a um miúdo que quase experiencia a morte e que tem de se adaptar às regras das prisões. Vemos mães desesperadas, a lutarem pelos seus filhos, tentando transmitir-lhes aquela esperança de que tudo vai correr bem. Mesmo sabendo que não vai. Quase que o espetador consegue sentir parte de um sofrimento imensurável.

Todo este sentimento também se deve, graças às performances das personagens. Contamos com um elenco bastante fiel e semelhante às pessoas que personificam. E, no meio disto tudo, gostava de realçar as prestações de Jharrel Jerome e Asante Blackk. Ambos nomeados a Emmys, tendo Jharrel Jerome conquistado o prémio de melhor ator em minissérie dramática ou telefilme. Jharrel encarnou o papel de Korey Wise, transparecendo para fora muito do sofrimento do verdadeiro Korey. Um papel muito difícil de interpretar, mas, a meu ver, muito bem conseguido.

When They See Us é um abre olhos para o espetador a uma realidade difícil de aceitar. Uma chapada sem mão para muitos, mostrando uma realidade difícil, crua do país que se diz ser um lugar de esperança e oportunidade para todos.


Raquel Lopes
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