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Memento(2000)

Há 13 dias | Mistério, Thriller, | 1h53min

de Christopher Nolan, com Guy Pearce, Carry-Ann Moss e Joe Pantoliano


Eu e Christopher Nolan temos mantido uma relação particularmente disfuncional. Foi uma relação que foi o equivalente a uma ardente paixão de Verão no início da minha vida cinematográfica. No entanto, algum desleixo na escrita das suas personagens em prol de espetáculo sensorial, mesmo sendo uma decisão que eu consigo respeitar, não permite um mergulho mais emocional nas suas histórias.

Memento também tem este problema de desconexão sentimental, mas enquanto na maioria da filmografia de Nolan isto é substituído por muito barulho e visuais espantosos, aqui há um puzzle para ser montado que requer um tipo de atenção mais lógico e incisivo, que não deixa propriamente a mente navegar para lados mais… “abstratos”.

O filme segue a perspetiva de Leonard (Guy Pearce) enquanto investiga e procura o responsável pela violação e morte da sua esposa. O problema? No ataque à mulher, Lenny sofreu um golpe que lhe retirou a habilidade de fazer novas memórias, esquecendo-se de tudo o que aconteceu depois da morte da mulher no espaço de minutos. Isto obriga-o a arranjar sistemas para se lembrar dos avanços da sua investigação: notas, tatuagens, polaroids. Mas quanto se perde na reaprendizagem constante da mesma informação? E quão facilmente manipulável é a informação?

A forma como Jonathan e Chris Nolan montaram o guião de Memento é onde jaz o verdadeiro génio daquele que para mim ainda é o melhor filme de um dos realizadores mais badalados do século XXI. O desenrolar dos acontecimentos coloca-nos nos pés de Lenny, obriga-nos a puxar constantemente a memória para montar o puzzle que, embora tenha as peças todas, tem de ser começado a montar do centro para fora.

Um conceito usado ainda um ano antes por Gaspar Noé em Irréversible (1999), mas aqui utilizado de uma forma menos filosófica e mais envolvida de forma prática na personagem que seguimos. A narrativa contada de trás para a frente, separada em segmentos que vão oferecendo contexto aos anteriores, pontificada com uma linha temporal apresentada a Preto e Branco (brincando um pouco com as polaroids) que não deixa claro onde se mistura com a principal rota de acontecimentos, é uma forma absolutamente engenhosa de explorar o interior do nosso protagonista.

Toda a tensão e o drama provêm da própria perspetiva fragmentada de Lenny. Há medida que vemos Guy Pearce, com o seu permanente ar confuso e inocente provavelmente na melhor interpretação da carreira, desenrolar o véu à volta do mistério, com outras personagens a brincar com a sua memória, e o seu propósito a ser posto em causa durante as constantes reaprendizagens diárias da sua tragédia, Nolan mergulha no carácter obsessivo da personagem. Um tema que, aliás, é comum a quase todos os seus filmes. O quão traiçoeira é a memória seletiva? Que mentiras dizemos a nós próprios para pudermos manter a sanidade mental? O quão frágil é a nossa existência quando lhe tiramos as nossas pequenas ficções íntimas? Coloca-se muita coisa em causa, muitos temas interessantes que podem tornar uma crítica cinematográfica menos útil do que uma análise profunda.

Isto leva-me ao único problema que Memento tem para mim, um problema comum também nos filmes de Nolan, e algo que me faz constantemente pensar que, mesmo continuando a criar excelentes maquetes de histórias, nem sempre as sabe transformar em diálogo, sem nunca ter mostrado grande evolução neste campo: a exposição.

O realizador britânico por um lado trata sempre de tratar o espetador como um ser inteligente, fazendo filmes bastante complexos e ao mesmo tempo acessíveis (algo NADA fácil), mas depois tropeça constantemente na necessidade de ter diálogos e voice-over que explicam tudo aquilo que estamos a ver, ou que vimos, e o sentido de ambiguidade, tão necessário neste tipo de filmes, perde-se parcialmente para um facilitismo momentâneo.

Vinte anos depois, Nolan ainda não conseguiu ultrapassar a mestria de Memento, esteve perto com The Prestige (2006) e Inception (2010), mas, para mim, ainda é aquele que melhor esconde as fragilidades de um cineasta que tem sempre algo novo e interessante para oferecer em cada filme, mas ficando sempre a um passo de tornar os seus intervenientes tão bons como os seus conceitos.


Rafael Félix
Outros críticos:
 Alexandre Costa:   10
 Pedro Horta:   10
 Bernardo Freire:   9