United 93 é devastador. É uma peça de cinema histórico difícil de assistir mas extremamente relevante e representativa.

United 93 é devastador. É uma peça de cinema histórico difícil de assistir mas extremamente relevante e representativa.

2006
Drama, História, Thriller | 1h51min
de Paul Greengrass, com David Alan Basche, Olivia Thirlby, Liza Colón-Zayas, Trish Gates e Khalid Abdalla


Tinha apenas 5 anos quando se deu o ataque às Torres Gémeas, assim como ao Pentágono. Incapaz de perceber a situação em grande escala, fiquei sensibilizado através das imagens que me chegavam pela televisão, e à preocupação dos meus pais.

Estávamos perante uma tragédia que iria mudar o mundo.

Cresci acostumado a ver os documentários e os filmes que anualmente recordavam os eventos do dia 11 de setembro de 2001. Entre eles, o objeto desta crítica, United 93, realizado e escrito pelo inglês Paul Greengrass. A história do avião que não chegou ao seu destino.

O que era uma agradável manhã de terça-feira tornou-se rapidamente num caos à medida que 19 terroristas sabotavam 4 aviões comerciais. A narrativa recria em tempo real a manhã do desastre, desde a comunicação entre as diversas torres de controlo dos aeroportos aos acontecimentos durante o voo do Boeing 757, da companhia aérea United Airlines.

United 93 é aquilo que gosto de chamar de documentário dramático. Greengrass não sensacionaliza o material de forma alguma, preferindo recordar os eventos passo a passo, sem foco nas relações interpessoais das personagens. Somos convidados a assistir a uma série de notificações entre os responsáveis pelas linhas de comando, desde a dúvida inicial ao pânico total. Aqui, o filme transmite os mal-entendidos e as falhas de comunicação de forma exemplar, culminando na resposta lenta que foi dada aos ataques inesperados.  

A montagem ritmada foi fundamental para não deixar o filme diluir-se em diálogos, ainda que a primeira metade sofra dessa inevitabilidade. Já os últimos 30 minutos são uma experiência tensa e nervosa, à medida que a atenção vai sendo cada vez mais dirigida para a tripulação e para a revolta dos passageiros do Boeing 757. A câmara tremida do diretor de fotografia Barry Ackroyd acentua a desorientação e agonia das pessoas no voo, da mesma maneira que confere ao filme um estilo mais realista, como se fizéssemos parte da viagem mortal.

É com uma certa admiração que vejo uma realização e um argumento sem partido. Numa das melhores cenas, podemos observar os passageiros a rezar em desespero, tal como os terroristas. As razões que levam a este ato solene, curiosamente, não diferem muito. Ambos estão à procura da salvação divina, de uma resposta positiva dos seus deuses, numa hora decisiva. Nota-se que o material foi explorado com o devido respeito.

Aliás, alguns dos "atores" são mesmo pessoas que viveram aquelas horas nos bastidores. Não há nenhuma estrela de Hollywood, como Nicolas Cage no filme World Trade Center (2006), os atores são vagamente desconhecidos, o que vai de encontro à vertente hiper-realista que Greengrass tanto preza.

Deixem a noção de entretenimento à porta, porque United 93 é devastador. Mais do que uma lembrança, permite vislumbrar com sobriedade os momentos de terror no interior dos aviões e a inevitabilidade do desastre. É uma peça de cinema histórico difícil de assistir mas extremamente relevante e representativa.

United we stand.


por Bernardo Freire