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Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance)(2014)

Há um ano | Comédia, Drama | 2h0min

de Alejandro G. Iñarritu, com Michael Keaton, Emma Stone, Edward Norton, Naomi Watts, Zach Galifianakis e Andrea Riseborough


São raras as vezes em que os Óscares conseguem acertar em qual foi o filme do ano, isto é subjetivo, eu sei, mas ganhar o galardão raramente tem algo a ver com ser o melhor ou não, mas sim o mais acessível, menos ofensivo e mais consensual possível de entre os nomeados. Felizmente em 2014 a sátira ao mundo do espetáculo que é esta obra-prima de Alejandro G. Iñarritu, Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance), levou inesperadamente, e com a mais inteira justiça, a estatueta do senhor Óscar para casa.

Riggan Thompson (Michael Keaton) era um conhecido ator de um franchise sobre um super-herói chamado Birdman, mas após se ter recusado a continuar a fazer a personagem, a sua carreira começou a entrar em declínio. Vinte anos depois, Riggan tenta, com as suas últimas poupanças, montar uma peça de teatro na Broadway, quase como uma última tentativa de se afirmar como mais que um mero ator de blockbusters. O filme acompanha os últimos dias de preparação da peça, usando isso como framework para estudar a personagem de Riggan e como ele interpreta o mundo da arte, e como se interpreta a ele mesmo no mundo da arte.

Sou o primeiro a admitir, é difícil fazer uma sinopse apelativa de Birdman. Mas eu prometo que é bastante mais interessante do que o que eu o estou a fazer parecer.

O principal elemento que eleva Birdman a um nível superior aos demais é a maneira como está montado. Todo o filme foi filmado e editado de forma a parecer um longo e infindável take que dura cerca de 1h55. Obviamente que o filme tem cortes, mas até ao olhar mais atento podem passar despercebidos devido ao excelente trabalho de edição. Isto não é um formato escolhido apenas para dizer “olhem para nós e vejam o que conseguimos fazer”, é sim, uma decisão com bastante propósito.

Como vos disse, a peça gira à volta de uma peça de teatro, certo? Então, são utilizadas várias técnicas do mundo do teatro para o filme, desde a troca de roupas em momentos em que a câmara deriva para outro lado, ou então longos monólogos em estilo close-up que são quase sufocantes. O facto de a câmara nunca parar provoca quase uma sensação de inquietação e cansaço ao espetador, e isto é ainda elevado pela banda sonora apenas constituída por precursão improvisada ao estilo jazz, adequada por ser tão imprevisível como a própria narrativa.

E agora estão vocês a perguntar “porque é que este gajo não se cala com estes pormenores técnicos?”. E, calmamente, eu respondo-vos “o filme não resultava sem isto”.

Atenção, com isto não quero dizer que o guião de Iñarritu seja fraco, porque está longe, mas mesmo muito longe de o ser, mas sem o trabalho criativo à frente e atrás da câmara, esta história ia parecer quase enfadonha.

Ainda assim, por muito bom que seja o guião, sem atores apropriados para o trazer à vida torna-se basicamente inútil. E até nisto o realizador mexicano não fez escolhas de casting inocentes. Edward Norton já protagonizou em The Incredible Hulk (2008), Emma Stone gravou Birdman numa semana livre das gravações de The Amazing Spider-Man 2 (2014), e claro Michael Keaton foi o primeiro grande Bruce Wayne em Batman (1989). Todos eles envolvidos em filmes de super-heróis. Sendo que é Keaton que carrega a bandeira deste filme, digam-me vocês se acham que esta escolha é aleatória.

Inãrritu mostra-nos o que acontece atrás das câmaras na cabeça dos atores e nas pessoas que os rodeiam. Dá-nos exemplos da falta de amor-próprio que estes têm, usando a arte para satisfazer as suas necessidades em vez de as praticar por amor à mesma. As três personagens centrais trazidas por Norton, Keaton e Stone, todos sofrem de algum tipo de falta de respeito próprio que tentam colmatar com diversos comportamentos autodestrutivos, demonstrando mais uma vez que a vida no mundo do espetáculo é um pesadelo ainda maior do que a maioria do público percebe. Este não é o único assunto que é visado em Birdman, visto que este guião passa toda a gente a ferro, desde críticos ao público, mas isso iria requerer uma análise muito mais extensa e eu não vos vou fazer passar por isso. Não têm de quê. Mas deviam pensar nisso, só vos faz bem.

Se tivesse de escolher um filme preferido de Alejandro G. Iñarritu, este seria provavelmente a minha escolha, se é o melhor já é outra questão, o homem tem um currículo que mete medo com nomes como Amores Perros (2000) ou The Revenant (2015). Mas na minha opinião pessoal, este é o seu melhor filme porque marca todas as minhas checkboxes. Quando eu vejo um filme eu procuro criatividade, algo diferente. E Birdman é simplesmente único em todos os aspetos, técnicos ou escritos, uma sátira com humor de língua afiada com performances incríveis e um realizador que tem a sua cabeça no sítio certo: fora da caixa.


Rafael Félix
Outros críticos:
 Alexandre Costa:   9
 Sara Ló:   9