Uma ode à arte do storytelling, uma carta de amor dos Coen.

Uma ode à arte do storytelling, uma carta de amor dos Coen.

2018
Western, Drama, Comédia
de Ethan e Joel Coen, com Tim Blake Nelson, James Franco, Liam Neeson, Harry Melling, Tom Waits, Bill Heck, Zoe Kazan e Brendan Gleeson


O que dizer sobre os irmãos Coen? Bem, o seu reportório é recheado de filmes notáveis como Fargo (1996), The Big Lebowski (1998), O Brother Where Art Thou? (2000) ou A Serious Man (2009), e um dos géneros pelo qual têm muito carinho é o western, como podemos observar em filmes como No Country For Old Man (2007) ou o remake do clássico de 1969 True Grit (2010). Em 2018 decidem lançar através da Netflix, The Ballad of Buster Scruggs, um filme que encaixa dentro das convenções de um western, mas que muitas vezes subverte o género. Se são fãs de Ethan e Joel Coen, façam como eu, não vejam trailers nem leiam sinopses, parem de ler isto (a sério), carreguem no play e desfrutem de um dos melhores filmes de 2018.

A intenção de The Ballad of Buster Scruggs era ser uma série de seis episódios para a televisão, mas posteriormente foi decidido juntar essas histórias numa única longa-metragem. Assim, os Coen – com a sua carismática assinatura – apresentam-nos uma agradável, hilariante e perturbadora antologia de histórias do Faroeste, sendo completamente justificável e válida a sua existência como filme. As seis histórias – com nada óbvio que as conecte entre si – são todas elas apresentadas como fazendo parte de um velho livro com o mesmo título do filme, dividido por capítulos. Cada um destes contos tem um prefácio ilustrado que constitui um pequeno preview dos dramáticos incidentes que iremos ver de seguida, em cada segmento do filme.

The Ballad of Buster Scruggs

Tim Blake Nelson – actor recorrente nos filmes dos Coen – é a personagem principal da história de abertura, interpretando um cowboy vestido de branco, chamado Buster Scruggs. Um cantor solitário e um fora-da-lei que mantém o seu bom humor, independentemente dos trágicos eventos que ocorrem à sua volta. Nelson está fantástico, interpretando a sua personagem em forma de caricatura, quase como se de um desenho animado se tratasse. Este primeiro episódio estabelece a fixação recorrente do filme e destaca-se dos outros segmentos por ser auto-consciente do género cinematográfico que nos apresenta, comentando e satirizando o western, justapondo comédia com a brutalidade e violência do Velho Oeste.

Near Algodones

No segundo segmento, James Franco interpreta um ladrão de bancos que tenta fazer um assalto no meio de nenhures e miraculosamente escapa à justiça. Mas a sorte não está do seu lado quando, à beira da morte, é punido de uma forma que se arrasta durante tanto tempo que se torna cómica. Assim, uma série de “macacadas” hilariantes e violentas depois, apercebemo-nos que está a ser vítima de uma piada cósmica – quase como se o Destino estivesse a brincar com a sua vida.

Meal Ticket

Nesta terceira história, Liam Neeson é um silencioso “empresário” de um teatro ambulante, que prepara os espetáculos de um único actor: um orador sem braços e sem pernas (Harry Melling), que actua todas as noites em diferentes vilas. O espetáculo resume-se ao actor com o seu torso em cima de um banco, enquanto recita passagens eloquentes de poesia. Esta performance é o ganha-pão destes dois viajantes, que recebem míseras moedas por parte de uma audiência leiga que não compreende o acto na sua totalidade. É o segmento mais silencioso, subtil e negro do conjunto, apresentando uma mudança de tonalidade em relação às histórias anteriores.

All Gold Canyons

Um solitário explorador de ouro encontra-se sozinho na natureza, trabalhando incansavelmente para encontrar o ouro que finalmente aumente a sua fortuna, mudando a sua vida para sempre. Mas como isto é um filme dos Coen, nada corre como planeado e infelizmente o velho explorador vê-se numa situação complicada. Uma história de persistência e tenacidade, onde talvez o mais importante seja reparar como a natureza responde a esta desventura. Todas as localizações do filme são formidáveis, mas a paisagem escolhida para o fundo deste conto é de uma beleza extrema.

The Gal Who Got Rattled

O penúltimo capítulo, conta a história de uma jovem solteira, interpretada de forma sublime por Zoe Kazan, que atravessa o país com a promessa por parte do seu irmão, de encontrar um marido e uma vida melhor no seu destino. Acompanhada por um grupo de pessoas, vários cavalos, um cão e uma fileira de carroças, a rapariga não deixa de se sentir sozinha após a morte do seu irmão. Fica com decisões difíceis para tomar, mas pela primeira vez com a possibilidade de construir o seu próprio futuro, sem estar na sombra do seu irmão. É o segmento mais emocional e com melhor conjuntura para o desenvolvimento das suas personagens.

The Mortal Remains

A secção final desta obra passa-se quase inteiramente dentro de uma carruagem cheia de viajantes (Tyne Daly, Saul Rubinek e Chelcie Ross) que descobrem que estão a partilhar a boleia com um cadáver e dois caçadores de recompensas (Brendan Gleeson e Jonjo O’Neill). Este grupo de estranhos conversam acerca do seu passado e têm algo em comum: partilham o mesmo destino. A viagem misteriosa é a conclusão da obra, que junta todas as histórias anteriores. É o capítulo com mais diálogo e é o argumento com mais complexidade. Prestem atenção às falas em The Mortal Remains, pois a falta de acção aparente é substituída pelas palavras.

Agora, como um todo: The Ballad of Buster Scruggs é um filme formidável, com paisagens de cortar a respiração, uma cinematografia deslumbrante por parte de Bruno Delbonnel e uma banda sonora rica a cargo de Carter Burwell. Não existem personagens repetidas e as localizações mudam ao longo do filme, assim como a tonalidade. Existe, no entanto, uma ligação em termos de temática: todas as histórias estão conectadas pelo sentimento do quão absurdo a morte pode ser, quão injusta e quão engraçada. É uma fábula acerca da mortalidade e do destino, onde as suas personagens estão presas – tal como nós – num universo que é maioritariamente insensato e ilógico.

Como a maior parte dos filmes antológicos, The Ballad of Buster Scruggs sofre um pouco com o facto de nem todas as suas histórias serem de igual valor, duração e entretenimento. Alguns dos segmentos têm tempo suficiente para desenvolver por completo as suas ideias, outros nem tanto. Mas mesmo com curtas ligeiramente inferiores, como um conjunto funciona. A maioria é clara e com uma precisão incrível, todas incorporam uniformemente actuações extraordinárias e os elementos que os fãs dos irmãos Coen esperavam.

Com uma mistura de comédia com desespero e pontuado com uma brutalidade intensa, The Ballad of Buster Scruggs é soberbamente bem executado. Há um compromisso por parte dos realizadores ao género que está a ser representado, e apesar do seu cunho pessoal que acaba por caricaturar e transformar os westerns, não deixa de ser uma celebração dos mesmos. Uma ode à arte do storytelling, uma carta de amor dos Coen.


por Sara Ló