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Corpus Christi(2019)

Há um mês | Drama, | 1h55min

de Jan Komasa, com Bartosz Bielenia, Aleksandra Konieczna, Eliza Rycembel


A surpresa polaca nomeada para “Melhor Filme Internacional” estava facilmente na categoria mais ingrata dos prémios da Academia de 2020, tendo de competir contra a sensação sul-coreana de Bong Joon-ho. Ainda assim Corpus Christi, com um realizador de 38 anos e um argumentista de 27, é um filme intenso, com tanto de juvenil como de maduro e é definitivamente um dos filmes a ter em conta quando falamos do cinema europeu de 2019.

Daniel, um jovem recluso, refugia-se na igreja da prisão para obter uma fuga espiritual aos terrores da vida de encarcerado. Quando sai em condicional e sem possibilidade de seguir para o seminário, viaja para uma terriola, indicado pelo padre da prisão, para ir trabalhar para uma serraria. Em vez disso, faz-se passar por pároco e substitui o pastor local numa altura em que aldeia atravessa um período de luto depois de uma tragédia matar 6 jovens da comunidade. Juntos, Daniel e a população irão ultrapassar os seus traumas e rancores num processo conjunto de cura, redenção e perdão.

Para um filme feito por gente tão jovem, consegue ter uma postura estranhamente adulta na captação de um jovem em constante conflito interior. Daniel é complexo e o filme é em partes iguais um drama social e um estudo de personagem.

Ultrapassar uma vida preenchida de crime e vícios, através de um processo espiritual, que por sua vez está apoiado numa gigante mentira que parece estar sempre a um passo de ruir, cria uma atmosfera inquieta. Sem nunca se apressar, desenvolve-se uma calma banhada de tensão que faria David Fincher sentir-se orgulhoso.

Algumas ideias vão se perdendo pelo caminho tal é o volume de temas que a história envolve, mas quando acerta, acerta mesmo em cheio. Especialmente quando se foca na belíssima atuação de Bartosz Bielenia e no afastamento para com a sua antiga vida, sacrificando a sua segurança para ajudar uma comunidade a, com ele, evoluir e libertar-se do passado. Corpus Christi oferece dois arcos narrativos perfeitos que vão de mão dada e mostram como o conjunto pode ser definida apenas por um indivíduo, e vice-versa. É uma desconstrução social interessantíssima de ver, e vale, só por isso, as duas horas de filme.

Muito bem atuado, primorosamente fotografado e engenhosamente escrito, esta pérola polaca tem mais a dizer do inicialmente me fazia parecer. É um comentário, não à religião, mas a como a espiritualidade pode ter um papel importante na reforma do ser, e, embora às vezes tenta demais, tem imensas questões pertinentes que levanta, numa história que agarra, e já não larga.


Rafael Félix
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