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A Hidden Life(2019)

Há 23 dias | Biografia, Drama, Romance, | 2h54min

de Terrence Malick, com August Diehl, Valerie Pachner, Maria Simon e Bruno Ganz


Terrence Malick destaca-se atualmente por ser um dos realizadores com o estilo mais marcante e uma filmografia de 50 anos, contando com títulos como The Tree of Life (2011) Days of Heaven (1978). Recentemente, juntou ao seu reportório A Hidden Life.

Baseado em eventos verídicos, categoriza-se como um drama biográfico sobre Franz Jägerstätter (August Diehl). Este agricultor austríaco tornou-se um objetor de consciência quando se recusou a lutar pelos nazis na Segunda Guerra Mundial, criando assim uma situação complicada para si e para a sua família.

Ao tirar inspiração das próprias cartas entre Franz e a mulher, Fani (Valerie Pachner), grande parte do filme cede à preferência do realizador pelo voice over. Aliás, a própria sequência de eventos é mais à base de pequenos momentos e montagens alternantes do que diálogo corrido em cenas específicas. É uma técnica particular narrativa que em vez de se focar propriamente no momento presente e o que este desencadeia de maneira direta, desvia a atenção para o ambiente e períodos de tempo mais fluidos.

Deste modo, abre o horizonte para o que pretende mesmo discutir. Isto é, as implicações morais e filosóficas emergentes que tomam o centro da obra. Assim, a decisão tomada pelo protagonista não é feita de forma definitiva ou enfrentada apenas com os problemas tradicionais. Aqui temos uma examinação próxima de fé, convicção e sacrifício que se torna quase um desafio psicológico. As causas, opções e efeitos são questionados de tal forma que deixamos de poder ver os acontecimentos objetivamente, da posição alta e certa reservada apenas a quem de certeza faria o mesmo.

Todos estes temas metafísicos são ancorados por uma forte presença sensorial, ou seja, visual e auditiva. Os dilemas interiores são, assim, integrados no trabalho físico representativo do quotidiano das personagens. Aqui e entre paisagens austríacas temos imagens que absorvem o espetador no cenário, acompanhadas pelo som claro interligado por música, voz ou somente por si só, sendo nestes casos ainda mais fulcral.

A amplitude que vemos vem de lentes específicas, que curiosamente em muitas alturas até nos aproximam mais às personagens. De expressões observadas de perto, os atores não se escondem e os dois protagonistas destacam-se como grandes intérpretes. Surpresa a minha quando me apercebi que August Diehl era aquele nazi detestável de Inglorious Basterds (2009). A sua atuação incrivelmente vulnerável é equiparada pela de Valerie Pachner e os seus momentos juntos são carregados com um imenso amor e química.

Com quase 3 horas de duração, é um filme que simultaneamente é uma missão de se ver seguido. Os diversos momentos parados causam então uma perda de atenção ocasional, cujo um pequeno corte de meia hora já faria muita diferença. Isto e mais ênfase no facto de praticamente (senão mesmo) todos os atores serem bilíngues seriam os únicos aspetos que mudaria, já que por si só diminuem a própria experiência cinematográfica.

Acima de tudo, A Hidden Life é uma história muito humana que evoca a nossa moralidade, a introspeção e a filosofia no estilo caracteristicamente poético de Terrence Malick.


Margarida Nabais
Outros críticos:
 Rafael Félix:   7