Uma história devastadora que, apesar de não ter um enredo completamente articulado, tem o coração no sítio certo.

Uma história devastadora que, apesar de não ter um enredo completamente articulado, tem o coração no sítio certo.

2018
Ação, Crime, Drama | 1h31min
de Mélanie Laurent, com Ben Foster, Jeffrey Grover, Christopher Amitrano, Mark Hicks e María Valverde


Enquanto uns lutam pela sua carreira à frente da câmara e outros por cargos de realização, a francesa Mélanie Laurent tem conseguido equilibrar ambos os papéis ao longo da última década. Um exemplo de dedicação que desta vez se reflete na realização de Galveston, um drama fatídico onde a desgraça persegue os protagonistas.

Um deles é Roy (Ben Foster), um assassino moribundo que após ter sido alvo de uma cilada encontra Rocky (Elle Fanning), uma jovem prostituta cuja sorte também não tem estado do seu lado. Ambos partem para Galveston, a cidade natal de Roy, onde este pretende vingar-se de quem o tramou.

O argumento é baseado no policial de Nic Pizzolatto, que o próprio adaptou sob o pseudónimo Jim Hammett. É uma história simples e linear, inspirada por elementos de film-noir, mas com algumas liberdades.

A linearidade leva a narrativa para território familiar, mas a realização cuidada de Laurent, aliada às duas tremendas performances centrais, conferem ao filme o seu próprio centro de gravidade. A sua voz. Uma voz que fala de vidas despedaçadas e sem grandes perspetivas. Tudo exposto de forma crua e pragmática, com o diálogo necessário.

Primeiro em Leave No Trace (2018), agora em Galveston, Ben Foster continua a demarcar-se como um dos atores mais subvalorizados do momento. Aqui volta a interpretar uma personagem introvertida, desta vez influenciada pelo vício e pelo crime. Igualmente bem está Elle Fanning, num papel desafiante onde tem de demonstrar uma vasta amplitude de emoções, desde tristeza e revolta até à mais pura felicidade. Torcemos para que as personagens sejam bem-sucedidas, mesmo quando tudo parece remar contra a maré.

Isto porque frequentemente o filme toca em matérias sensíveis e não é fácil de assistir. Entre a brutalidade de algumas cenas, o diretor de fotografia Arnaud Potier capta algumas imagens poéticas na procura de refletir as emoções das personagens.

É uma tática que resulta, tendo em conta que o argumento de Hammett não se presta a muitos esclarecimentos sobre o passado dos protagonistas. Existem, no entanto, cenas chave que nos dão acesso a parte dos seus contextos. São algumas das cenas que dão mais prazer de assistir.

Porque Galveston não deve ser visto pela ação, pelo crime ou mesmo pelo suspense, mas sim pelos escassos momentos de alívio que Roy e Rocky proporcionam um ao outro. É uma história devastadora que, apesar de não ter um enredo completamente articulado, tem o coração no sítio certo.


por Bernardo Freire