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Cats(2019)

Há um mês | Comédia, Drama, Família, | 1h50min

de Tom Hooper com Francesca Hayward, James Corden, Rebel Wilson, Judi Dench, Ian McKellen, Jason Derulo, Jennifer Hudson, Idris Elba, Robert Fairchild


Meses após o polémico trailer de Cats ter saído, deparamo-nos finalmente com a obra nas salas de cinema, para uma experiência totalmente surreal, deixando o espetador sem reação ao sair da sala. O filme da realização de Tom Hooper não corresponde de todo ao que os espetadores conhecem do seu trabalho e ainda nos mostra que nem todas as narrativas bem representadas em palco podem ser quase literalmente transportadas para o cinema.

Victoria (Francesca Hayward) é uma gata que foi abandonada e que acaba por seguir um grupo de gatos, os Jellicle Cats, que pela noite dentro estão ansiosos para que seja feita a Jellicle Choice, onde os gatos apresentariam os seus talentos e o melhor seria escolhido e ascenderia ao Heaviside Layer, para uma nova vida. Victoria tenta perceber o seu lugar acabando por conviver com outros gatos que não pertenciam ao primeiro grupo que encontrou. Que diferença fará ela? Onde se encaixará? O que poderá acontecer?

Na obra somos confrontados com uns mutantes estranhos, pessoas com pelo e orelhas de gato. O esforço colocado nas personagens pode ter sido melhor que o do primeiro trailer, porém é curioso ver que parece que não é demonstrado o mesmo esforço em todas as personagens, ou nem todas se fundiram com o seu corpo animalesco de forma tão eficaz, havendo alguns atores em que a figura estranha lhes assenta numa forma mais natural (se é que é possível) que noutros, que parecem que foram quase coladas as suas caras na forma.

Deste modo, poderia tentar elogiar o grafismo, todavia é difícil, porque mesmo estando um corpo parcialmente com sentido, se olharmos para o musical, tem, para além dos erros que já referi, erros de movimento, que por vezes são estranhos. Enfim os efeitos especiais revelam-se um dos problemas principais desta obra, há realmente uma mistura entre a animação e a realidade que confunde o cérebro de qualquer um.

Conhece a expressão estranha-se e depois entranha-se? Bem ao longo do filme é possível nos habituarmos e entrarmos um pouco na “onda” destes mutantes, no entanto, não chegamos a entranhar totalmente. O próprio musical da Broadway, composto por Andrew Lloyd Webber, preocupa-se mais em transformar em gatos que no filme, procurando, mesmo com os poucos recursos, representar um focinho, por exemplo.

Quanto ao elenco, é uma pena que um tão rico não tenha conseguido salvar Cats, pois a representação é de qualidade, o problema é o que os envolve.

Victoria representada pela atriz Francesca Hayward, é das protagonistas mais fracas que já vi, e a culpa não é da atriz, que tem uma voz lindíssima e a quem nem é dada grande oportunidade de representação para além da música. Uma personagem com escassas falas até ao desfecho do filme, limita-se às suas expressões faciais num filme onde todos falam mais que ela e se destacam mais que a mesma, sendo olhados por ela, a maioria das vezes, com um ar confuso ou entusiasmado.

Outro aspeto que vai além dos já referidos, tem mesmo a ver com a maneira como o filme tem a narrativa organizada e disposta, que acaba por se tornar aborrecida. À que admitir que a história não é muito complexa, e talvez por isso, como não tem a dinâmica de um espetáculo em palco. Pode dar por si a olhar para o relógio em certas cenas, principalmente se não se sentir envolvido naquele clima musical.

Mesmo com tantos erros, Cats não deixa de ter os seus lados positivos, desde algumas personagens que realmente tornam o filme menos maçador e que captam alguma atenção, assim como o original da própria obra.

É verdade que Cats tem um elenco muito rico, com atores talentosos e com grandes carreiras, mas os que mais se destacam, também devido às suas cómicas personagens, são James Corden, Bustopher Jones, e Rebel Wilson, como Jennyanydots, que conseguem tirar pelo menos um sorriso do espetador.

A estes elementos junta-se a banda sonora como aspeto positivo, que mesmo sendo maioria do musical em que o filme é baseado, contém um original. Beautiful Ghosts de Taylor Swift, interpretado belissimamente pela protagonista, talvez seja uma das melhores coisas do filme.

Pode-se também destacar de interessante na obra é o seu significado, que para os fãs do musical não surpreende tanto, realçado no filme com um monólogo interessante representado por Judi Dench, que interpreta Old Deuteronomy, uma gata mais velha que está envolvida na Jellicle Choice.

Quanto ao realizador, retomo o que referia acima, em relação ao que poderíamos esperar. Mesmo que Cats seja um novo tipo de filme, não era de esperar o resultado vindo da realização de Tom Hooper, que tem no seu currículo filmes como The King’s Speech (2010) e The Danish Girl (2015). Esperemos que o realizador nos apresente outra obra a que possamos dar uma maior oportunidade, neste tipo de filme.

Termino assim dizendo que Cats deveria ouvir a sua personagem Asparagus (Ian McKellen), quando este dá a entender que as novas tecnologias não ultrapassam os palcos, porque neste caso é verdade. Aconselho o espetador a dar uma oportunidade a Cats pela sua peculiaridade, no entanto não garanto que será uma boa viagem pelo cinema.


Rafaela Boita
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