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The Laundromat(2019)

Há 27 dias | Drama, | 1h36min

de Steven Soderbergh, com Meryl Streep, Antonio Banderas e Gary Oldman.


Continuando com as habituais metáforas culinárias, o reportório de filmes de Steven Soderbergh assemelha-se a uma generosa Sopa da Pedra, cheia de tralha saborosa lá para dentro como Ocean’s Eleven (2001) ou Contagion (2011), só para nomear alguns. Tão saborosa que quase consegue disfarçar o sabor meio que rançoso de filmes como High Flying Bird (2019) ou Full Frontal (2002), que se assemelham mais a meias molhadas do que a belos pedaços de chouriço. Portanto para que lado desta balança gastronómica vai cair The Laundromat?

Esta sua nova colaboração com a Netfilx é baseada em The Secrecy World, o livro de Jake Bernstein que desconstrói o escândalo dos Panama Papers e o que tornou possível um tão absurdo nível de fraude fiscal e lavagem de dinheiro. Isto divide o filme em duas partes.

Uma parte narrativa em que seguimos a personagem de Meryl Streep, uma viúva, vítima destes elaborados esquemas de fraude, neste caso específico num conflito com a seguradora que seria responsável por pagar a indemnização após a morte do marido num acidente, e na sua incansável procura por quem a ludibriou. Paralelamente, temos Antonio Banderas e Gary Oldman a explicar como é que esta aldrabice toda funcionava por dentro.

Parece familiar? É possível. O próprio Soderbergh admite que isto é a sua tentativa de fazer o seu próprio The Big Short (2015), o filme de Adam McKay que tinha basicamente a mesma estrutura, mas em vez dos Papéis do Panamá focava-se no desmoronamento do Mercado Imobiliário e na origem da crise económica de 2008.

Sendo assim, põe-se a questão: qual o melhor? Bem, esta ronda vai para McKay, porque enquanto o seu filme era cheio de personagens interessantes, humor afiado, estranhamente informativo e totalmente movido a cafeína, The Laundromat assemelha-se mais a uma espécie de documentário aborrecido que ali pelo meio tem uma história qualquer à qual eu devia dar qualquer tipo de interesse, mas que Soderbergh não sabe vender lá muito bem. Nem com quebras constantes da 4th Wall, nem os takes longos nem a tentativa de deixas sardónicas, nada é de encher o olho. 

A falta de uma personagem mais palpável à qual o público se agarre acaba por ser uma barreira demasiado difícil de ultrapassar e o filme acaba por se tornar barulho de fundo a partir de uma certa altura.

Além disso, a narrativa tem uma estrutura bizarra que se separa em várias histórias, mas acaba por nunca concluir nenhuma, e a conclusão que estão a tentar oferecer ao todo do filme, que é “como é que esta malta fica rica”, quase parece anti climática para a quantidade de tempo que se perde em cada um destes excertos que em nada acrescentam à storyline principal. É uma espécie de versão Happy Meal do brilhante Requiem for the American Dream (2015), infelizmente.

The Laundromat está longe de ser um mau filme, no entanto dá a ideia que se acha bem melhor do que aquilo que realmente é. Para um filme que é, e deixa-o bem explicito, sobre dinheiro, é por demais irónico que não existe dinheiro que me fizesse querer saber do que quer que seja que se passava no ecrã. Se a filmografia de Soderbergh é a tal Sopa da Pedra, o seu mais recente tento assemelha-se mais a uma folha de alface molhada com pouco sabor do que a qualquer outra coisa decente que se podia por lá dentro.


Rafael Félix
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