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1917(2019)

Há um mês | Guerra, Drama, | 1h59min

de Sam Mendes, com Dean Charles Chapman e George MacKay


Sam Mendes, realizador por trás de American Beauty (1999) e Skyfall (2012), e Roger Deakins, o lendário diretor de fotografia responsável por Blade Runner 2049 (2017), No Country for Old Men (2007) e milhentas outras obras-primas visuais, voltam a colaborar 7 anos depois para o projeto mais ambicioso das suas carreiras.

6 de Abril, 1917. Dois soldados britânicos têm em mãos uma missão impossível. Atravessar quilómetros de território inimigo para entregar uma mensagem às suas tropas que as irá impedir de cair numa armadilha alemã que custará a vida a mais de 1600 homens, incluindo o irmão de um deles.

Há algumas comparações que podem ser feitas. O novo filme de Sam Mendes é um cruzamento genético entre Dunkirk (2017), Birdman (2014) e Saving Private Ryan (1998) e formam uma experiência à qual a única palavra que se pode atribuir é “épica”.

Vamos por partes. Como em todos os filmes que têm uma caraterística muito especifica, seja ser a preto e branco, um formato fora do comum, ou neste caso, um take contínuo sem interrupções, levanta-se sempre a questão: “o filme é a caraterística” ou “o filme tem esta caraterística”?

Neste caso, mais a primeira opção, mas não é necessariamente um detrimento.

Sam Mendes diz em várias entrevistas que “experienciamos a vida através de um longo take”, portanto a estrutura visual de 1917 conta a história tanto como o próprio guião, que o realizador escreveu através de histórias contadas pelo seu avô que participou na Primeira Guerra Mundial. A câmara está em constante movimento, mas nunca se torna repetitivo, como que se dançasse em volta dos atores e pautasse os momentos do filme, fosse através da proximidade intima dos close-ups às personagens ou da forma como se afastava e permitia absorver os horrores da guerra presentes nas trincheiras abandonadas ou cidades em ruínas.

Tudo isto serve para tornar o tudo mais palpável, e quando lhe juntamos toda a produção dos sets e dos guarda-roupa, em que é possível sentir a sujidade e putrefação numa zona repleta de morte e perigos em que as nossas personagens nunca estão seguras ou confortáveis, chega a ser possível sentir a lama nos pés e o cheiro cadavérico enquanto atravessamos estas terras e isso enriquece por completo toda a experiência sensorial do filme.

Se há algo em que o filme peca, é em faltar-lhe personagens um pouco mais elaboradas, que ofereçam um pouco de força emocional a esta jornada. Porque embora o trabalho de câmara e as atuações (que são, de facto, fantásticas) deem uma sensação de que os soldados nunca estão a salvo e a qualquer momento algo lhes pode rebentar debaixo do pé, ou podem ser abatidos por um sniper, nunca existe uma real preocupação por nenhum dos dois visto que não lhes é dado muito tempo para explorar o que lhes vai na alma. A banda sonora de Thomas Newman, que é toda ela gigante e ensurdecedora, tenta compensar um pouco a falta de coração que o filme tem, e se for a pesar o que o filme se propõe, que é entregar ao espectador algo mais sensorial que emocional, é uma decisão que eu consigo compreender.

Só uma pequena menção à escolha do elenco. Os dois personagens centrais são interpretados por dois atores modestamente conhecidos (embora MacKay tenha sido excelente em tudo o que vi dele), o que é uma decisão impecável, quando a ideia é fazer destes dois homens, apenas soldados comuns, ver a cara de um Brad Pitt ou de um Tom Cruise em nada ia ajudar a isso. Em vez disso o filme é pontilhado com alguns pequenos papéis de grandes atores como Colin Firth, Andrew Scott ou Mark Strong. Excelente.

1917 pode não entrar naquela clássica discussão dos “melhores filmes de guerra de sempre”, mas é sem dúvida, um banquete para os sentidos, um épico que merece ser visto no maior ecrã possível, na melhor sala possível. E Mendes pode ter feito muito bem o seu trabalho, mas o verdadeiro herói deste filme é Roger Deakins. Este homem é um presente para o mundo.


Rafael Félix
Outros críticos:
 Alexandre Costa:   9
 Pedro Horta:   9
 Bernardo Freire:   7