Inscreve-te e tem vantagens!

Uncut Gems(2019)

Há 2 meses | Drama, Crime, Mistério, | 2h15min

de Benny Safdie e Josh Safdie, com Adam Sandler, Julia Fox, LaKeith Stanfield e Kevin Garnett


Depois do sucesso do thriller em esteroides de Good Time (2017), e com as notícias que o seu filme seguinte iria ser protagonizado por Adam Sandler, o próximo projeto dos Irmãos Safdie tornou-se um dos mais aguardados de 2019. Ou pela qualidade de quem está atrás da câmara, ou pela curiosidade de ver quem está à frente dela fazer algo que se possa dizer “um filme a sério”, eram muitas as razões para fazer de Uncut Gems um must-see nesta época de prémios.

Howard Ratner (Adam Sandler), joalheiro, dono de uma loja de penhores, jogador compulsivo e do mais desonesto que Deus trouxe à Terra, vê na sua posse uma pedra preciosa rara vinda da Etiópia. Com o leilão da pedra à porta e metade da cidade atrás dele a cobrar dívidas, Howard terá de correr atrás do prejuízo através de negócios manhosos, apostas tresloucadas, uma crise familiar e cobradores assassinos para conseguir vender a gema e mudar a sua sorte.

Sendo que este argumento foi escrito anteriormente a Good Time, simplesmente os Safdie não tinham conseguido arranjar financiamento antes do sucesso do filme de 2017, é fácil tecer algumas semelhanças entre os dois.

São os dois, corridas contra o tempo, de ritmo frenético e claustrofóbico, sem pausas para respirar durante 2 horas inteiras. Aquilo em que os irmãos se destacam de todos os outros realizadores é na mestria que têm a captar caos e ansiedade, seja na proximidade e tremer da câmara, ou pela tensa e eletrónica banda sonora, ou pelo facto de todas as personagens falarem ao mesmo tempo, a berrar umas com as outras e admito que sem as legendas teria sido complicado captar mais de metade do que se disse no filme.

Cria-se assim uma atmosfera caótica e desorientadora que pauta todo o filme. Não será de estranhar que haja quem sinta que toda a experiência é um pouco frustrante e cansativa, e é mais que justificável, principalmente porque a primeira hora acaba por se tornar um pouco repetitiva e logo aí vai perder muita gente. No entanto, se o investimento lá estiver, a última hora, que é mais ou menos quando a história começa a avançar a passos largos, é facilmente das mais acutilantes e satisfatórias que vi este ano.

O argumento dos Safdie não está tão preocupado em fornecer uma sequência de acontecimentos encadeados que levam a nossa personagem por caminhos inesperados. A história começa-se a parecer mais com um cão a correr atrás do rabo no que toca ao avançar do enredo que outra coisa. Em vez disso o objetivo é estudar Ratner e esta sua infinita ganância e procura de afirmação exterior e na forma como isso o põe em perigo a ele, e também em como isso afeta todas as pessoas à sua volta. Não é propriamente o tipo de personagem mais complexo que vimos este ano, mas se associarmos isto ao estilo que os Irmãos aqui meteram, cria-se aqui uma das peças mais extenuantes que 2019 trouxe.

Dito isto, o verdadeiro aglutinador de tudo é mesmo Adam Sandler. A carreira do ator tornou-se quase numa piada, o que é um paradoxo giro, dado que praticamente todos os seus filmes dos últimos 15 anos têm tanta piada como um copo de água tépida. Mas como Paul Thomas Anderson provou em Punch-Drunk Love (2001), Sandler se for bem utilizado consegue ser incrível, e este papel de Howard Ratner assenta-lhe que nem uma luva, maioritariamente porque permite que berre e pareça um total alucinado, mas ao contrário dos seus outros filmes, aqui tudo isso tem realmente um propósito.

Benny e Josh Safdie podem ainda não terem feito um filme que me tenha totalmente tirado os pés do chão, mas são definitivamente das vozes mais interessantes desta nova geração de realizadores, e acima de tudo, criaram um estilo que é deles e que os identifica, e Uncut Gems prova-o com o seu ritmo caótico e alucinante rumo a desfechos desconcertantes.

E é bom ver Sandler num filme a sério. É mesmo. Com Kevin Garnett ainda por cima.


Rafael Félix
Outros críticos:
 Alexandre Costa:   9
 Raquel Lopes:   8
 Bernardo Freire:   9