Um poema visual de alguém que quer declarar a importância multifacetada das suas raízes e das mulheres da sua vida.

Um poema visual de alguém que quer declarar a importância multifacetada das suas raízes e das mulheres da sua vida.

2018
Drama
de Alfonso Cuarón, com Yalitza Aparicio, Marina de Tavira, Diego Cortina Autrey, Carlos Peralta e Marco Graf


Depois de arrecadar uma série de prémios pelo filme Gravity (2013), o realizador Alfonso Cuarón volta a distinguir-se com a experiência cinematográfica mais rica de 2018. Bem longe da imensidão do espaço, Roma decorre no início dos anos 70 e remete-nos para o bairro mexicano onde Cuarón passou a juventude, sendo criado desde os 9 meses por uma ama chamada Libo, a quem dedica o filme.

Libo é recordada através da protagonista, Cleo (Yalitza Aparicio), uma jovem indígena que trabalha como doméstica com a sua irmã para uma família de classe média. A patroa chama-se Sofía (Marina de Tavira), uma mãe de quatro filhos que vê o seu marido sair de casa e lentamente apercebe-se que não tenciona voltar. Cleo passa por uma tragédia semelhante. Ao contar ao seu namorado que está grávida, o mesmo desaparece sem hesitar.

Neste filme o que os homens fazem melhor é esquivar-se das responsabilidades, deixando as mulheres a lidar com as repercussões dos seus atos. Um retrato que infelizmente não foge da realidade. É uma narrativa sobre a resiliência da figura feminina em tempos difíceis, independentemente das suas raízes. Além do mais, recria acontecimentos reais como o massacre de Corpus Christi, onde 120 pessoas foram mortas, e realça a importância da água em várias cenas, acrescentando uma dimensão política ao retrato íntimo da família.

Da primeira à última imagem, Roma é um trabalho de amor. Cuarón não só realiza como também é o autor do argumento, o diretor de fotografia, o produtor e o responsável pela montagem, com o auxílio de Adam Gough. A câmara acompanha as personagens com precisão em movimentos lentos e rotativos, chegando a capturar sequências onde gira em 360 graus com os atores a mover-se como se estivessem a dançar.

Torna-se particularmente interessante quando estes movimentos são aplicados a cenas com grande escala. A sublime fotografia a preto e branco preenche uma tela que está em permanente foco, permitindo a absorção de imagens neorrealistas que reproduzem a Cidade do México com uma autenticidade impressionante. A qualidade técnica na realização é fora de série. Um verdadeiro testemunho da habilidade de um realizador que está no topo do seu jogo.

Mas ainda no âmbito da autenticidade, a atriz Yalitza Aparicio personifica o significado da palavra. No seu primeiro papel, oferece uma bondade e quietude à personagem que nunca por um momento soam falsas. Consegue uma performance envolvente que culmina numa cena esmagadora na praia de Veracruz, onde senti o sabor das minhas lágrimas.

Roma é um poema visual de alguém que quer declarar a importância multifacetada das suas raízes e das mulheres da sua vida. Transporta-nos para um sonho tangível do qual não queremos acordar, tal não é a mestria com que é executado. Acima de tudo, recorda-nos que o cinema é uma máquina que gera empatia das formas mais surpreendentes.


por Bernardo Freire