É um mistério erótico que funciona melhor enquanto comédia do que outra coisa qualquer.

É um mistério erótico que funciona melhor enquanto comédia do que outra coisa qualquer.

2018
Ação, Mistério, Thriller | 1h30min
de Maria Pulera, com Nicolas Cage, Penelope Mitchell, Franka Potente, Lydia Hearst e Garrett Clayton


Sem grandes rodeios, Between Worlds é mais um projeto falhado que tem a sorte de contar com Nicolas Cage no papel principal. Ao longo dos últimos anos, o ator tem vindo a participar em vários filmes que deixam muito a desejar, sendo Looking Glass (2018) e 211 (2018) alguns dos exemplos mais recentes. Mandy (2018), do realizador Panos Cosmatos, é a grande exceção à regra. Mas o impressionante em Cage é que, independentemente da qualidade do filme, o seu carisma e dedicação às personagens é inegável, proporcionando momentos hilariantes que se destacam no meio do fracasso.

O objeto em estudo é realizado e escrito por Maria Pulera, e conta a história de Joe (Nicolas Cage), um camionista desafortunado que sofre de uma tragédia familiar. Ele conhece Julie (Franka Potente), uma mulher com um dom espiritual cuja (Penelope Mitchell) filha tinha acabado de entrar em coma. Por meios nada convencionais, a sua filha acorda do coma e regressa a casa. Entretanto, Joe e Julie começam a aproximar-se. Na tentativa de cuidar da filha, Julie repara em vários comportamentos diferentes nela, até que descobre uma verdade inconveniente.

Desde as primeiras imagens que a falta de primor na produção é notória. Da iluminação ao posicionamento da câmara, a realizadora acusa a sua inexperiência e o diretor de fotografia Thomas Hencz acrescenta mais um trabalho à sua lista de insucessos. Após este reparo, é engraçado constatar que a descompostura de alguns planos complementam a narrativa, que desde o primeiro ato revela traços insólitos. Tudo acontece sem naturalidade, desde a maneira como Joe aceita as explicações de Julie até à forma como a sua relação se desenvolve.

É um argumento com uma premissa inicial interessante mas que falha redondamente na sua execução. Frequentemente, sente-se que o diálogo que está a ser proferido provém de um pedaço de papel. É dito de forma inorgânica e é, por vezes, completamente aleatório. Franka Potente é a campeã do diálogo seco. No entanto, como referi anteriormente, Cage apresenta-se superior, mesmo nas tarefas mais ridículas como ler um livro erótico em pleno sexo intitulado "Memories by Nicolas Cage". É impossível não rir! Quanto a Mitchell, revela alguma destreza com uma personagem multifacetada.

Não é um filme que se torna bom de tão mau que é, ao estilo de clássicos de culto como The Room (2003), porque mesmo apresentando várias inconsistências, a narrativa do filme está claramente estruturada e existe a intenção de quebrar regras em prol de algumas gargalhadas.

Nesse sentido, Between Worlds é um filme estranho. Certas cenas tornam-se toleráveis por causa da sua imprevisibilidade, mas não deixa de ter um enredo atroz e de ficar muito aquém no que diz respeito à ação. É um mistério erótico que funciona melhor enquanto comédia do que outra coisa qualquer. O tipo de comédia que levanta a questão: "porquê que eu estou a ver isto?"


por Bernardo Freire