É um final de trilogia com grande qualidade, que demonstra um herói que é capaz de sacrificar a sua alma pela sua cidade.

É um final de trilogia com grande qualidade, que demonstra um herói que é capaz de sacrificar a sua alma pela sua cidade.

2012
Ação, Thriller | 2h44min
de Christopher Nolan, com Christian Bale, Michael Caine, Tom Hardy, Anne Hathaway, Joseph Gordon-Levitt, Gary Oldman, Marion Cotillard e Morgan Freeman


Após ter explorado o medo em Batman Begins e o caos em The Dark Knight, Christopher Nolan explora a dor neste último capítulo da sua trilogia.

Nada fácil foi a produção deste último capítulo, a morte de Heath Ledger (interprete do Joker) modificou todos os planos de argumento dos irmãos Nolan, Chris e Jonathan. Originalmente, a história era sobre o julgamento em tribunal do Joker, a exploração da Harley Quinn (que seria a Anne Hathaway) e a continuidade do crime de Harvey Dent. Ainda se pensou em utilizar imagens cortadas de Heath Ledger em The Dark Knight, mas a produção percebeu que seria impossível. O projeto ficou em standby.

Quatro anos depois, Nolan consegue ter a história que quer, com a contratação de Tom Hardy (trabalharam juntos em Inception) no papel de Bane, Anne Hathaway como Selina Kyle e Joseph Gordon-Levitt como inspetor John Blake.

O que nos conta o filme?

Faz oito anos que Batman (Christian Bale) desapareceu, acusado da morte do Cavaleiro Branco de Gotham, Harvey Dent (Aaron Eckhart). Batman sacrificou tudo em nome do que ele e o comissário Gordon (Gary Oldman) consideravam uma causa justa e nobre. As ações dos dois homens mostraram-se eficazes por um tempo, o crime diminuiu e Gotham está organizado pelas leis repressivas iniciadas por Dent. A chegada do mercenário Bane (Tom Hardy), um terrorista que tem uma máscara na cara, leva Bruce Wayne a deixar o exílio e a regressar a Gotham. Oito anos sem fazer exercício, o Cavaleiro Negro poderá não estar à altura em defrontar Bane.

A cena de introdução tirou-me todas as preocupações que tinha com o filme, o meu hype era tão grande após a obra de arte que foi The Dark Knight que fiquei mais relaxado. Apresenta-nos tudo: o novo antagonista, Bane, e percebemos o quanto forte ele é. Mas também apresenta a mestria de realização de Christopher Nolan. Um assalto a um avião de grande intensidade (engraçado que o precedente também começa com um assalto).

O filme contém muitas analogias. Gotham funciona como uma mentira dupla: Harvey Dent como um herói, Batman como um criminoso. Uma mentira que esconde uma perigosa inversão de valores. Os habitantes preferem esta mentira reconfortante a uma realidade mais perturbadora. Pois, o Joker ganhou. Transformou o homem mais puro da cidade num verdadeiro psicopata.

É aqui que intervém Bane: aproveita a mentira criada por Gordon e Wayne para refinar a sua estratégia silenciosa, longe dos olhares indiscretos. A mentira também está presente entre Alfred (Michael Caine) e Wayne, sobre o caso da Rachel (Maggie Gyllenhall). Alfred escondeu a Bruce que a Rachel amava o Harvey.

Para alcançar a verdade, é necessário cavarmos nas profundezas. Tal como Bane e a sua prisão subterrânea, ou a Batcave de Batman.

Bane e Wayne é um confronto, psicológico e concretamente físico. A conexão entre os dois é flagrante: têm o mesmo mentor Ra's Al Ghul (Liam Neeson), uma voz de grande intensidade, uma vontade de se esconder atrás de uma máscara para preservar as suas identidades, uma infância difícil e dois seres sombrios, provenientes das sombras. É a escuridão que emerge o Batman na sua primeira aparição do filme, e é nas sombras que Bane reside.

A escuridão serve para esconder e para ser esquecida. É adequada aos projetos terroristas de Bane – mais uma vez, Nolan explora a alegoria do terrorismo, visto nos seus três filmes. Bane faz de Gotham uma cidade refém, ameaça a cidade inteira, cria a sua anarquia para estabelecer a sua própria lei. Apresenta-se como um libertador, impondo o medo e opressão. A dor está presente.

É ridículo comparar Bane com o Joker. Bane é bruto, forte, calculista e ao contrário do Joker tem um plano que segue ao milímetro. Bane é um terrorista que mete medo e impõe a sua dor perante uma cidade abandonada de todos. Nem o Batman o consegue vencer em duelo físico.

The Dark Knight Rises é extremamente político. É uma reflexão subjacente sobre a injustiça social – um dos exemplos é a personagem Selina Kyle, que não sabemos como se tornou ladra, mas percebemos que foi forçada pela sua situação social.

Adorei as medidas arriscadas de Nolan, é um filme com menos ação que os seus antecedentes, mas a intensidade dos combates entre Batman e Bane são filmadas com uma grande e rara violência. É um dos poucos aspetos em que Rises ultrapassa The Dark Knight.

O elenco é novamente fabuloso. Tom Hardy é um excelente antagonista, Joseph Gordon-Levitt demonstra todo o seu talento e carisma. Michael Caine é emocionante. Anne Hathaway é uma grande surpresa! É uma personagem secundária bem desenvolvida. Christian Bale assina a sua melhor performance de toda a trilogia, vemo-lo partido, perdido, quase morto, a sua dor é a nossa.

Nolan arriscou: o filme tem cerca de 2h45 e devemos ver Batman, no total, cerca de meia hora (se tanto). Pode ter desapontado fãs, por não parecer ser um filme acerca do Cavaleiro Das Trevas, eu gostei do partido. As aparições do protagonista não são tão marcantes como nos dois primeiros, mas é com um objetivo preciso – Batman não apareceu durante 8 anos, está fraco, irritado, perdido, a sua força não é tão grande como anteriormente. O antagonista é mais forte que o protagonista. Batman é quebrado.

Hans Zimmer regressa na banda sonora, e compõe novos temas para o Bane e para a Selina Kyle. O compositor está de parabéns, pela globalidade e grande qualidade da trilogia.

The Dark Knight Rises pode ter desiludido por ser um dos filmes mais aguardados de todos os tempos. O nível estava tão alto, que podia não corresponder às expectativas. Vejam o filme com calma, percebam as mensagens que Christopher Nolan quis transmitir, pensem que Heath Ledger não regressa e elogiem as qualidades do Bane.

É um final de trilogia com grande qualidade, que demonstra um herói que é capaz de sacrificar a sua alma pela sua cidade. The Dark Knight Rises marcou o final de uma trilogia que ficará marcada para a história do cinema. Nunca me cansarei de ver e rever.


por Alexandre Costa