É um filme que vai dividir muitas opiniões e que, após o seu fim, deixa um vazio que sugere rever a obra.

É um filme que vai dividir muitas opiniões e que, após o seu fim, deixa um vazio que sugere rever a obra.

2018
Comédia, Crime, Drama | 2h19min
de David Robert Mitchell, com Andrew Garfield, Riley Keough, Topher Grace , Chris Gann, Callie Hernandez e Riki Lindhome


Não sei quanto a vós, mas por norma a minha lista anual de filmes tende a ser algo gigante. Com obras de todas as maneiras e feitios, passando entre o medíocre e o brilhante, entre as explosões aéreas e os dramas pausados. E olhando para o elenco e a premissa apresentada na sinopse, Under the Silver Lake acabou por ser um filme a ver em 2018.

A verdade é que tentei vir para o filme sem ter muita bagagem exterior que me influenciasse. Limitei-me a ter noção de que iria assistir a uma sátira pesada sobre uma geração inativa, com muito tempo disponível no seu quotidiano.

Para aqueles que apontaram o último filme de David Robert Mitchell – It Follows (2014) – como algo sem conteúdo, Under the Silver Lake irá apresentar-se como algo ainda mais sumarento e complexo. Para os que gostaram, este novo poderá causar confusão de tantos momentos narrativos que tem. De qualquer das maneiras, o novo filme de Mitchell é um divisor de opiniões natural.

Sam (Andrew Garfield) é um jovem que não faz absolutamente nada na sua vida. Não trabalha, não tem amigos, não sai, não nada. Limita-se a viver na sua casa alugada (que não paga), a fumar, a masturbar-se perante revistas antigas da Playboy e a espiar vizinhas – estaremos nós a presenciar um maníaco? –. Um dia, depois de espiar a sua vizinha Sarah (Riley Keough) com binóculos e ser apanhado, decide deslocar-se até sua casa e, surrealmente ou não, acaba por ser bem-vindo e ser convidado a fumar erva e a ver filmes antigos a noite inteira. Sendo interrompidos, Sarah pede a Sam que venha ter com ela na tarde seguinte.

Nessa tarde, quando Sam se desloca a sua casa encontra apenas quatro paredes de uma casa não-mobilada, sem sinal de Sarah, e com um símbolo manhoso na parede. Símbolo esse que irá levar Sam a percorrer a cidade inteira à busca da vizinha que conheceu na noite anterior. Será que será levado ao assassino de cães que ronda o seu bairro? Será que irá descobrir o paradeiro do bilionário que desapareceu?

A grande mensagem que se pode retirar do argumento de Mitchell é que ele quer fazer ver que a cultura pop é baseada em mistérios, códigos escondidos e que tudo está interligado com algo. Tudo isto frisando que esta geração atual de preguiçosos e drogados têm tempo mais que suficiente para investigar tais coisas. O problema é o enredo de Under the Silver Lake acabar por levar o seu próprio criador na viagem e toda a gente se perder pelo caminho.

Andrew Garfield tem uma, digamos, boa interpretação que oscila entre o bom e o paupérrimo em alguns momentos. Interpreta Sam de uma forma apática e consegue, muitas vezes, ser a razão para que a audiência não desista do filme a meio. No entanto, a sua personagem está enfiada num ninho de confusões e pontas soltas que não a ajudam nem a ela, nem ao seu ator.

Tecnicamente, o filme acaba por ser agradável. A fotografia de Mike Gioulakis – que acompanhou Mitchell em It Follows, mas que também é responsável por Split (2017) – é um dos melhores pontos. É bem composta, com as cores ideais e representa bem a visão do realizador. O mesmo pode ser dito da música de Rich Vreeland, mas foquemo-nos nisso no próximo parágrafo.

A noção que passa é que Mitchell merece bastante crédito pela visão que apresenta em Under the Silver Lake. A sua realização é ousada e apresenta uma mistura de nuances semelhantes a Alfred Hitchcock e a Paul Thomas Andersen. Mitchell usa movimentos e ângulos muito familiarizados com Hitchcock e introduz elementos noir em momentos muito peculiares. A música típica cria um sentimento de estranheza, de tensão e conecta-se com um argumento que faz lembrar David Lynch, por exemplo.

Estes momentos todos nem sempre funcionam até porque David Robert Mitchell parece nem sempre saber por que caminhos quer ir. Quanto mais fundo vamos na obra, mais confusos poderemos ficar e o filme prova que o seu ritmo parado, a sua estranheza na narrativa e a facilidade com que tudo acontece neste noir moderno, pode não agradar muita gente.

É um filme que vai dividir muitas opiniões e que, após o seu fim, deixa um vazio que sugere rever a obra. Ainda assim, será preciso tentar perceber a cabeça de Mitchell para se poder tirar outras conclusões ao filme. Porque como disse, não é percetível se ele próprio quer que o público apenas aceite a obra pela sua estranheza extrema, ou se quer que o público mais hardcore desconstrua a narrativa e encontre uma outra mensagem mais profunda.


por Pedro Horta