Inscreve-te e tem vantagens!

Harriet(2019)

Há 16 dias | Ação, Biografia, Drama, | 2h5min

de Kasi Lemmons, com Cynthia Erivo, Joe Alwyn, Henry Hunter Hall e Janelle Monáe


Quando o assunto se trata de figuras históricas, salvo exceções, a consciência coletiva tem um conhecimento muito restrito. Os livros de História são altamente seletivos e, convenhamos, tendenciosos. O que deixa os adolescentes com uma visão afunilada daquilo que define o passado de um país. O cinema, ilimitado nas suas narrativas, tem servido também para dar voz aos notáveis que, por entre a poeira histórica, foram negligenciados. Nos calcanhares desta premissa a realizadora Kasi Lemmons apresenta Harriet, uma biografia segura sobre uma personalidade determinada.

O enredo tem início em Maryland, em 1849, enquanto Harriet Tubman (Cynthia Erivo) - que na altura era uma rapariga escrava chamada Araminta Ross - tenta escapar para Filadélfia, onde não existe escravatura. Motivada por uma enorme força interior e premonições que tem desde uma lesão que sofrera na cabeça na sua juventude (mensagens de Deus, acredita), Tubman consegue o prodígio de chegar sozinha à terra da liberdade. Após a sua chegada, procura a ajuda do abolicionista William Still (Leslie Odom Jr.) e da benfeitora Marie Buchanon (Janelle Monáe), no sentido de voltar a Maryland e resgatar a sua família. Por esse e outros feitos, a ex-escrava torna-se num membro da Associação das Estradas Subterrâneas, que ajudou milhares de escravos a escapar do sofrimento.

Pode não investir tanta atenção na violência desumana como 12 Years a Slave (2013), mas tal como este, a justaposição entre o trabalho forçado e a beleza rural dos campos americanos é fonte de interesse do diretor de fotografia John Toll. Além do mais, é de salientar a música do compositor Terence Blanchard, que acrescenta dimensão à imagem mesmo quando a narrativa não exalta. Canções como a Goodbye Song ou até mesmo a Sign Of The Judgement conferem personalidade às respetivas cenas, tal como a inspiradora Walking Into Freedom representa em termos sonoros a transição da escravatura para a tão ansiosa liberdade.

Os maiores inconvenientes acabam mesmo por ser a falta de ambição dramática e o formalismo dos acontecimentos. Individualmente os momentos chave resultam, mas no seu todo a história é contada de forma demasiado limpa e acessível - Ótimo para um público mais jovem, mas menos cativante para quem enxerga as barbáries que foram cometidas à época. Não é necessário sensacionalizar, mas um pouco menos de higienização faria sentido.

Por outro lado, e a elevar constantemente o filme, está a interpretação de Cynthia Erivo, que apenas na sua terceira longa-metragem comanda o ecrã com um balanço entre robustez de espírito e vulnerabilidade. É uma performance tão superior que o vilão da narrativa estagna em comparação e reduz a jornada heróica da personagem título. Joe Alwyn não equipa a sua personagem com carisma, nem o argumento a equipa com memorabilidade, reduzindo-a a uma pedra que vai estorvando o trilho da protagonista.

Tudo isto faz de Harriet um filme que entretém e educa simultaneamente, mesmo que fique um pouco aquém no que diz respeito às emoções e à audácia da história. Coloca uma figura histórica no merecido holofote e passa uma mensagem que vai de encontro à noção básica de que nenhum humano pertence a outro humano. Harriet Tubman sabia disso no século XIX. Cabe a nós, nos século XXI, continuar a lutar por estes ideais.

"Estima-se que cerca de 40,3 milhões de pessoas estão a vivenciar alguma forma de escravatura moderna, sendo que 24,9 milhões o são em trabalho forçado." - Organização Internacional do Trabalho, 2019


Bernardo Freire
Outros críticos:
Nenhum autor votou nesta crítica.