Um filme melancólico, apoiado pelos tons escuros, transmitindo uma sensação de mistério, obscuridade e, por vezes, alguma tensão.

Um filme melancólico, apoiado pelos tons escuros, transmitindo uma sensação de mistério, obscuridade e, por vezes, alguma tensão.

2019
Drama
de Rashid Johnson, com Ashton Sanders, Margaret Qualley, Nick Robinson e KiKi Layne


Dos estúdios da HBO, Rashid Johnson estreia-se como realizador com Native Son. Baseado no livro de 1940 de Richard Wright com o mesmo título, este filme conta-nos a história de Bigger (Ashton Sanders), um rapaz negro dos subúrbios que se cruza com uma proposta de trabalho, acabando por se tornar motorista de uma família extremamente rica. Uma família desprovida, aparentemente, de qualquer tipo de preconceito, composta por um pai que adora música clássica, a mãe que ao longo dos anos foi perdendo a visão, estando no presente da história, completamente cega, e uma filha adolescente extremamente revolucionária e edgy.

Não posso deixar de passar despercebida a narrativa que nos é apresentada. Uma história embebida de preconceitos tanto de brancos para negros, como de negros para negros. Que, posso falar por experiência, acontecem recorrentemente. Discursos de como evoluíres na sociedade é deixar para trás as tuas raízes, ou deixares de ser negro. E, por isto, sou capaz de rever-me em muitas referências apresentadas no filme. No entanto, considero que poderia ter existido uma abordagem mais ampla para os assuntos que foram retratados.

No querer incluir tanta coisa, acabou por não se falar de nada em concreto. Um enredo rico em ideias, mas pobre na concretização. Desta forma, considero que seja difícil que esses factos sejam percecionados por quem não os vive.

Ashton Sanders tem um papel excecional neste trabalho, mostrando uma performance da parte dele que até então nos era desconhecida. No entanto, acredito que a narrativa o tenha atraiçoado um bocadinho. Conseguimos compreender minimamente a personagem, muito devido aos monólogos em forma de “pensar em voz alta” aquando dos acontecimentos mais marcantes. Big é uma personagem ambiciosa que sabe o que quer fazer do seu futuro, mas sem meios para o alcançar. Vive evitando confusões, sendo uma figura de respeito no seio familiar e de muito orgulho para a sua mãe (interpretada por Sanaa Lathan).

Um filme melancólico, apoiado pelos tons escuros, transmitindo uma sensação de mistério, obscuridade e, por vezes, alguma tensão. Uma banda sonora simples, mas que faz jus aos momentos em que aparece.

Considero que, num ambiente como os Estados Unidos, este filme seja muito necessário para os americanos, principalmente para os afro-americanos. Apesar de tudo, temos de contextualizar a situação à realidade para a qual o filme é dirigida. Há uma sensibilização para muitos aspetos importantes, incluindo a brutalidade policial, que aparece tão subtilmente, mas que marca toda uma realidade que não é vivida por nós. Contudo, foi criada uma narrativa a adereçar uma quantidade de problemas que sim, existem, mas que são tão complexos que por si só dariam um filme. 


por Raquel Lopes