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Ad Astra(2019)

Há 6 meses | Aventura, Drama, Mistério, | 2h4min

de James Gray, com Brad Pitt, Tommy Lee Jones e Liv Tyler


Tal como em 2018 tivemos a magnífica jaw-line de Ryan Gosling emoldurada por um capacete de astronauta, em 2019 temos o maxilar esculpido por Deus de Brad Pitt enfiado num fato espacial para levar às costas o novo filme do realizador do agradável The Lost City of Z (2016), James Gray.

Depois do planeta Terra ser atingido por tempestades elétricas apocalíticas provenientes de Neptuno, Roy McBride (Brad Pitt) é enviado numa viagem interplanetária para tentar comunicar com o seu pai, Clifford McBride (Tommy Lee Jones), desaparecido (e julgado morto) 16 anos antes na orla do planeta enquanto procurava comunicar com vida extraterrestre, e a única pessoa que poderá ter pistas sobre as causas do que está a acontecer.

Ad Astra promete bastante, mas fica-se só pela intenção. O último tento de James Gray sofre de alguns problemas de identidade numa história que aponta a dizer uma enormidade de coisas diferentes, mas acaba por dizê-las todas ao mesmo tempo numa espécie de grunhido indecifrável.

É inegável que o espetáculo montado consegue camuflar, até um certo ponto, os problemas presentes no núcleo do filme. O realizador não mentiu quando disse que o seu mais recente trabalho era um cruzamento entre Apocalypse Now (1973) e 2001: A Space Odyssey (1968). Não que existam (muitas) referências e piscares de olho à obra-prima do Mestre Kubrick, mas sim pela aura que pauta o filme: o épico, o gigante, o imenso. 2001 para mim, é, e sempre será, antes de um filme sobre o homem e o seu lugar no cosmos, uma exibição épica. Um puro espetáculo de descoberta e wow.

E esse mesmo espetáculo está também aqui presente, nunca ao nível de Odyssey com certeza, mas há muito entretenimento visual na fotografia de Hoyte Van Hoytema, onde a câmara flui de forma impecável entre o íntimo e o imenso, também com uma ajudinha jeitosa dos sets bem cuidados e realistas, tal como no clássico de ’68.

Onde o filme acaba por se espalhar mais é no character-study proveniente da inspiração retirada da jornada de Benjamin Willard em busca de um homem que se perdeu na busca de algo maior que ele em Apocalypse Now.

James Gray acaba por espelhar o argumento de Coppola, mas num grau de sucesso bem diferente.

É pedido a Brad Pitt, que nunca soube fazer um mau trabalho na vida, que carregue todo o filme às costas. No entanto, a personagem de Roy McBride é demasiado estoica e fechada, e sendo que nunca tem ninguém que o desafie ou contraponha, a ligação emocional para com o protagonista fica dependente não só de uma narração e diálogo interior que a maioria das vezes retira mais do que oferece, como também de umas avaliações psicológicas a que a personagem é constantemente sujeita apenas e só como desculpa para puder expelir desavergonhadamente tudo aquilo que Roy pensa a cada momento do filme. Essa tal ligação acaba por se desvanecer rápido, e o interesse pela jornada desfaz-se em fumo cósmico.

Com isto, outros problemas ficam mais aparentes. Várias plot-lines que se vão perdendo pelo caminho, outras mal resolvidas, outras tantas simplesmente mal construídas e acabando por se enevoar ainda mais o que raio está James Gray a tentar dizer. Ao mesmo tempo que tenta fazer um filme introspetivo e íntimo sobre a solidão interior do Homem (embora haja muitas outras conclusões que se podem tirar da história, e nenhuma é clara), quer ter também cenas de tiroteios lunares dignos de um 007 no espaço ou sequências de thriller que podíamos encontrar no Alien (1979) de Ridley Scott. Há um desequilíbrio e falta de foco em oferecer um rumo concreto ao filme, e isso é por demais evidente.

Embora Ad Astra esteja longe de ser um total falhanço, fica a ideia que se tentou fazer um estudo épico à determinação humana, e acabámos com uma história a espaços interessante, mas que fora dos elementos técnicos e de algumas sequências isoladas, nunca consegue deslumbrar, sendo que se não fosse o deslumbre visual, possivelmente estaria aqui uma valente barrigada de sono.


Rafael Félix
Outros críticos:
 Bernardo Freire:   6
 Alexandre Costa:   8
 Pedro Horta:   8
 Raquel Lopes:   7