É um clássico intemporal recheado de boas atuações e enaltecido por uma escrita primorosa que não pode ser perdido

É um clássico intemporal recheado de boas atuações e enaltecido por uma escrita primorosa que não pode ser perdido

1960
Comédia, Drama, Romance
De Billy Wilder, com Jack Lemmon, Shirley MacLaine e Fred MacMurray


Embora, à partida, classificado como uma comédia, rapidamente se percebe que este filme se trata de um drama bastante humano disfarçado de comédia romântica. Sem quaisquer artifícios e através da subversão de clichés, esta história intemporal é contada com mestria. Além de ser uma reflexão sobre a vida corporativa e o que alguns estão dispostos a fazer para conseguir cargos cada vez mais altos, é também uma história sobre como o amor consegue ser mais forte do que qualquer ambição material ou avareza.

O filme conta a história de um homem, C. C. Baxter (Jack Lemmon), um pequeno funcionário de uma grande companhia de seguros que, de modo a ser promovido e conseguir cargos cada vez mais altos, aluga o seu apartamento a executivos da empresa para casos extraconjugais. Ao descobrir que a mulher por quem está apaixonado, Fran Kubelik (Shirley MacLaine), é a amante do seu chefe, Jeff D. Sheldrake (Fred MacMurray), Baxter começa a repensar as suas ações e vê-se forçado a escolher entre o seu amor ou a sua carreira.

Realizado por Billy Wilder, e considerado por muitos a obra-prima deste que é um dos melhores e mais versáteis realizadores da história do cinema, The Apartment é isso mesmo: versátil. A versatilidade era um dos pontos fortes do realizador, e a sua filmografia é a prova disso. Desde filmes noir até comédias hilariantes e dramas pesados, conseguiu abordar e trabalhar praticamente todos os géneros cinematográficos. The Apartment é, indiscutivelmente, o seu auge.

O filme é caracterizado por uma conjugação brilhante entre comédia e drama que leva o espectador a sentir uma vasta gama de emoções ao longo das duas horas e cinco minutos de duração. A escrita engenhosa consegue misturar estes dois géneros quase opostos numa narrativa que não só é cativante, como também relevante e tocante. É uma obra para ser descoberta aos poucos, dotada de camadas que vão sendo reveladas com o passar do tempo, criando dessa forma uma história de amor intemporal.

Para mim, o ponto forte deste clássico é a escrita. Escrito pelo próprio Billy Wilder e por I. A. L. Dimond, o guião é provido de um cinismo e sarcasmo que imprimem à narrativa um realismo ríspido e ácido sem nunca perder o tom romântico que a caracteriza. Embora a história não seja propriamente complexa ou inovadora, a forma como está estruturada e, principalmente, os fantásticos diálogos nela contidos elevam este filme ao estatuto de clássico. É uma escrita inteligente e satírica que não tem medo de lançar farpas a todas as classes. Especialmente visível nas cenas mais engraçadas, o subtexto dramático presente neste filme é riquíssimo. A discrepância quase contraditória entre o que uma personagem diz e o que ela quer dizer nutre as cenas de uma energia revoltante.

Wilder era admirador e tinha como grande inspiração um realizador alemão chamado Ernst Lubitsch, que era conhecido pelo estilo muito próprio que dava aos seus filmes, o chamado Lubitsch touch. Em The Apartment, é visível a influência de Lubitsch na escrita e estrutura de algumas cenas. O que caracteriza estas cenas é a sua enorme complexidade narrativa, possuindo sempre muito mais conteúdo do que aquilo que aparentam. Só me resta destacar a cena do espelho partido, e cabe ao espectador perceber o que há de tão genial nessa cena.  

As interpretações são um espetáculo à parte. As personagens são muito humanas e credíveis, têm falhas e comportamentos questionáveis, e é isso que as torna tão verdadeiras. Jack Lemmon brilha numa das melhores, senão a melhor, interpretação da sua carreira. O ator, além de muito investido no papel, injeta vivacidade e energia ao personagem. Consegue fazer uma interpretação dramática e cómica ao mesmo tempo sem nunca se tornar caricato ou exagerar. Shirley MacLaine consegue – através de uma atuação mais contida, mas igualmente brilhante – dar vida a uma personagem assolada pela tragédia da situação em que se encontra. Traz um charme e uma beleza invulgares que conseguem prender e criar empatia com o espectador.

É um clássico intemporal recheado de boas atuações e enaltecido por uma escrita primorosa que não pode ser perdido. Numa época onde tantos filmes usam e abusam de telas verdes e efeitos visuais feitos por computador, é importante parar para respirar e apreciar o bom cinema do passado. Hoje em dia, estamos todos muito stressados e nervosos, exigimos coisas quase instantaneamente, forçamos sentimentos que não existem, e esquecemo-nos de que às vezes é preciso simplesmente calarmo-nos e dar as cartas.


por Filipe Lourenço