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Midsommar(2019)

Há 30 dias | Drama, Horror, Mistério, | 2h27min

De Ari Aster, com Florence Pugh, Jack Reynor e Will Poulter


Depois de Hereditary (2018), se Ari Aster fizesse uma novela para a TVI e lhe chama-se O Beijo de Gertrudes protagonizada por Alexandre Lencastre, eu ia ver religiosamente e ainda ia comprar a Revista “Maria” à quinta-feira para saber se a Gertrudes ia ou não acordar do coma em que João Teles de Albuquerque a tinha posto. Portanto as minhas expectativas iam bem altas quando entrei no cinema S. Jorge, para ver Midsommar. Por norma é-me fácil ir cauteloso mesmo para um filme que esteja absurdamente ansioso para ver, mas no caso deste e de The Lighthouse (2019), que espero trazer-vos daqui a uns meses, estaria a mentir se dissesse que a minha visão não podia ser parcialmente toldada pelo hype, para o bem e para o mal. Felizmente não foi o caso.

Dani (Florence Pugh) e Christian (Jack Reynor), um casal à beira do colapso, segue para a Suécia para visitar a comunidade de um dos seus amigos e participar nos rituais que celebram o solstício de Verão. Mas aquilo que começa com flores e naprons da Avó Matilde, rapidamente se começa a transformar no festival de horrores que podíamos esperar de um filme de Ari Aster.

Midsommar puxa mais a The Strange Thing about the Johnsons, a curta-metragem que o realizador americano fez em 2011, do que a Hereditary. No sentido em que este filme é, sem qualquer dúvida, um misto de filme de terror com uma valente dose de humor para toda a família…desde que todos os constituintes tenham mais de 16 anos e estômago para taxidermia.

É sempre difícil medir o “engraçadismo” de algo, especialmente quando tens uma sala cheia a rir e o mood que se cria é propicio a arrastar gargalhadas que na solidão do quarto talvez não iriam aparecer, daí o meu cinismo atual. Uma segunda visualização no conforto do meu sofá é capaz de me tirar as dúvidas, mas arriscaria dizer que é maioritariamente bem-sucedido no que tenta fazer ao misturar estes dois tons que, embora parecidos, não têm coexistência fácil. Sendo um filme tão grande e que leva o seu tempo a mergulhar no macabro (embora quando o faça seja full-on), há algo que se pode ir perdendo nas mudanças menos conseguidas de tom, um risco sempre presente quando se tenta algo deste género.

Já é tema comum as famílias disfuncionais nos filmes de Aster, e embora esse tema também seja de total importância para a narrativa, na verdade este é mais um break-up movie, como o próprio Ari o admitiu, retirando inspiração de uma relação que tinha terminado aquando do aparecimento do projeto. Há uma mágoa crónica presente nas duas personagens centrais, ambas em extremos completamente opostos do que toca ao “medidor de amor”, ele no espetro possessivo da indiferença e ela na obsessão possessiva por atenção. É um paralelismo interessante que acaba por pautar todo o filme, mas fica claro que o objetivo não é arranjar uma solução para este tipo de relações unilaterais, e sim dar quase que um “castigo divino” à parte da qual o realizador tem menos simpatia. Uma vingança artística. Soa melhor do que dizer ao teu ex “vai-te f***r”.

Esta parte acaba por retirar um pouco da profundidade dada sobre a mitologia de Hårga, que faria falta para tornar tudo um nadinha mais imersivo. Porque há, e propositadamente, sempre uma distância espiritual entre os forasteiros e os habitantes, e sim, o medo do desconhecido funciona bastante bem, mas apenas até certo ponto. Mas dado que o filme tem quase 2h30, era preciso um bocadinho mais de luz (pun intended) em toda essa vertente para dar um brilho final à coisa.

Por falar em luz. A principal peça de marketing para Midsommar foi “Olha, estão a ver, é um filme de terror que não se passa em salas escuras”. Só isto não chega, mas se aliarmos isso à obsessão estranha de Ari Aster por flat-shots que parecem tiradas de uma casa de bonecas, aos hard-cuts cómicos, à banda sonora que muitas vezes me levou para The VVitch (2015) e a todos os magníficos sets e vestidos que parecem bordados à mão pela magnífica Avó Matilde (isto se a Avó Matilde pertence-se a um culto pagão sueco), o filme acaba por ganhar uma atmosfera muito própria que não seria possível se tivesse o mesmo tipo de tom cromaticamente depressivo de Hereditary. Isto para dizer que sim, justifica-se o ênfase em ser totalmente filmado durante o dia.

A segunda longa-metragem do realizador tem um público-alvo difícil de apontar. Não aponta ao susto, mas sim ao macabro, e simultaneamente quer o espectador a rir de forma desconfortável. É um equilíbrio precário que pode tanto cair no ridículo da indiferença, ou pode cair num completo deslumbramento e sentimento de transe. Não vai agradar a todos, mas dificilmente vai deixar alguém indiferente.

Mesmo assim há um público que vai adorar este filme. Os fãs do choro de Florence Pugh. Esses vão perder a cabeça.


Rafael Félix
Outros críticos:
 Rafaela Teixeira:   8
 Pedro Quintão:   6