Transmite a dinâmica problemática de uma relação nos anos 60', sem perder um núcleo dramático forte.

Transmite a dinâmica problemática de uma relação nos anos 60', sem perder um núcleo dramático forte.

2017
Drama, Música, Romance
de Dominic Cooke, com Billy Howle, Saoirse Ronan, Anne-Marie Duff e Adrian Scarborough


Dez anos depois de ter sido publicado, o escritor Ian McEwan adapta o seu próprio romance em forma de argumento. O resultado é On Chesil Beach, um filme de época sobre aquilo que os ingleses não gostam de falar. Classes sociais e sexo são os exemplos proeminentes, enquanto observamos ativamente a história de amor de um casal inocente até um momento crucial. É uma sólida estreia do realizador Dominic Cooke, que projeta temáticas difíceis de abordar em cinema com um subtexto admirável.

O ano é 1962 e os recém-casados Edward e Florence (Ronan and Howle) encontram-se na costa de Dorset, no Reino Unido, onde vão passar a sua primeira noite juntos. O fim de tarde prolonga-se e uma série de momentos constrangedores culminam num encontro frustrado na cama. Entretanto, o enredo ganha densidade à medida que assistimos a pontos chave na sua relação, em analepse. Assim, percebemos as raízes das personagens, tal como as razões que os levam a ter problemas de comunicação, apesar do amor e respeito mútuo.

As intenções do filme são bem definidas pela mente de McEwan: retratar uma sociedade inglesa pré-revolução sexual, uma época repressiva onde certas tradições deviam de ser seguidas à risca. Mas são os protagonistas que exploram a complexidade dos temas com brilhantismo.

Howle consegue uma ótima interpretação multifacetada, acusando a pressão das expetativas que a sociedade lhe incutiu, já Ronan, depois da sua performance marcante em Lady Bird (2017), volta a dar cartas com uma personagem complexa e interessante. A ternura que ambos demonstram um pelo outro faz ressonância a Joel Edgerton e Ruth Negga no filme biográfico Loving (2016).

Apesar da sua simpatia, o filme faz questão de sublinhar a distância e o nervosismo que ambos sentem. O silêncio, a linguagem não-verbal fechada e close up's dos pés dos protagonistas a contorcer, comunicam insegurança e repressão. A narrativa faz-nos questionar de onde vem essa distância, tornando a experiência envolvente.

Envolve também no sentido em que mantém um fio condutor entre os diferentes espaços de tempo, através de uma montagem com bastante auxílio sonoro, por parte de Nick Fenton. À medida que entramos no terceiro ato, algumas decisões relacionadas com o argumento levantam mais dúvidas do que respostas, contorcendo um pouco o enredo. No entanto, ao nível emocional, o culminar do filme mantém-se comovente, carimbando a história de amor como eficiente.

É autêntico, algo cómico e triste, com uma atenção ao detalhe que as produções britânicas nos têm habituado ao longo dos tempos. A praia de Chesil é, naturalmente, onde a cena mais impactante decorre, e onde o diretor de fotografia Sean Bobbitt capta algumas das melhores imagens do filme, capitalizando o charme dos protagonistas, assim como a esbelta paisagem naturalista.

Com um toque clássico, On Chesil Beach sucede em transmitir com clareza a dinâmica problemática de uma relação nos anos 60', sem perder um núcleo dramático forte. Todas as limitações, vergonhas e expetativas que seriam postas em causa, e bem, poucos anos mais tarde, preveniram conflitos desnecessários e abriram a mente da sociedade.


por Bernardo Freire