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Lost Girls(2020)

Há 4 dias | Drama, Mistério, Thriller, | 1h35min

de Liz Garbus, com Amy Ryan, Thomasin McKensie, Gabriel Byrne

 

Já é conhecido o histórico da paixão ao documentarismo da cineasta Liz Garbus, a realizadora dos Estados Unidos que nos trouxe, este ano, ao abrigo da Netflix, Lost Girls: fez reviver a América (e o mundo) de uma história de perda, devoção e horror.

Lost Girls relata o caso do desaparecimento de Shannan Gilbert, envolvido num assassinato em série de várias outras raparigas, na região de Long Island. Shannan, uma rapariga de 24 anos, vivia uma relação abusiva e era prostituta em Jersey City. Aos doze anos foi mandada pela mãe, Mari Gilbert, para adoção e, desde aí, mantinha uma relação distante com a família.

Em 2010, Shannan despareceu após sair da casa de um cliente. Então, a sua mãe, Mari, tornou-se na principal guia e líder da sua investigação, acusando a polícia de neglicência, por ter chegado uma hora mais tarde depois do telefonema de Shannon a pedir socorro, e por porem o caso da filha em segundo plano, ao considerarem não estar relacionado com a onda de homicídios, devido aos corpos de outras mulheres que na mesma zona tinham sido encontrados. E ainda condenou os meios de comunicação social e, mais uma vez, a polícia por desvalorizarem o caso e as vítimas, devido ao seu trabalho de atividade sexual, tirando-lhes a dignidade de serem também filhas, amigas e irmãs.

Desta forma, a longa desenvolve-se em torno do ativismo de Mari, que lutou por descobrir o que tinha acontecido à filha e a todas as outras raparigas. Este é, assim, mais propriamente um filme sobre Mari do que o próprio desaparecimento da sua filha.

É a única personagem que realmente é trabalhada e mostrada, sendo todas as outras mal desenvolvidas. As duas filhas de Mari, Sherre e Sarra Gilbert, têm pouco protagonismo e Shannan acaba por não ter um rosto durante todo o filme. Apesar de se enquadrar como algo simbólico representando o seu desperecimento da personagem, penso que «dar uma cara» a Shannan teria tido maior impacto, sensibilizando a audiência para a sua história.

O filme descreve a luta de Mari, a sua dor, os seus sacrifícios e erros. No entanto, vários temas como a prostituição, a indiligência da polícia, os problemas dentro da família Gilbert como a bipolaridade de Shannan, a esquizofrenia de Sarra e as dificuldades económicas da sua vida, são pouco tratados. Este é um filme que deveria mostrar todo o ambiente das personagens, e faz pouco nisso. Centra-se apenas na figura de Mari, em momentos até que podiam ser eliminados do filme para dar colo a outros. Porem, uma analogia muito bem concebida no filme, e que abarca as condições económicas da família, é o facto de Mari ter dois trabalhos: nas obras, como (supostamente) a figura masculina (que não se importava de ser, e muito bem), e empregada de balcão, como a figura feminina; mostrando não só o quanto precisava de dois empregos para manter a vida, arduamente, em ordem, e como fazia o trabalho de pai e mãe. Acho que essa foi uma componente importante, sim.

O elenco não se destacou, nem houve oportunidade para se destacar (como acontece com Oona Laurence). Esperava uma melhor performance da parte de Gabriel Byrne (The Man in the Iron Mask, 1998; Hereditary, 2018) e Amy Ryan poderia ter mostrado mais de emoção e dor como mostrou de raiva. Apreciei bastante, todavia, a interpretação de Thomasin McKenzie, o recente talento de Jojo Rabbit (2019), com tudo a seu favor para se vir a destacar no cinema, no futuro, merecida a sua elegância, magnetismo, distinção e individualidade.

Passando para outro assunto. A narrativa não deixa margem para dúvidas, e torna fácil ao público aceder à base da história e da sucessão de eventos. Com um argumento vitorioso na concisão imposta num guião imediato e linear, digno de transparecer a realidade, Michael Werwie fez um bom trabalho ao adaptar, para o filme, o livro de Robert Kolker.

Típico do trabalho de Garbus, para deixar a ficção de lado e fazer o documentário o mais próximo da realidade, foram inseridos imagens e vídeos da época do caso, em momentos particulares da película, ligando o espetador à história. Nesse aspeto, a produção esteve muito bem, fazendo como que um trabalho jornalístico, com a cobertura dos factos.

Tendo obras como What Happened, Miss Simone? (2015) e The Farm: Angola, USA (1998) nomeadas para Óscar de Melhor Documentário, desta vez, tenho que dizer que a longa metragem de Garbus não foi das que melhor contribuiu para a sua carreira. Mas pode-se dizer que a realizadora conta com mais um documentário competente na sua lista.

Em suma, sombrio e misterioso, todo o filme teve um ar intenso, as personagens envolviam-se numa atmosfera cinzenta: fosse o cenário, as roupas ou a própria história de vida de cada um. Nem a propriedade privada de Oak Beach com os seus habitantes e moradias perfeitas escaparam à visão turva e mórbida do filme, mostrando-se um local deturpado e sinistro. A realizadora é eficaz ao dar o nível certo de obscuridade ao filme.

Resta agora esperar que a cineasta transporte outra história verídica para o ecrã, pois são histórias se escondem entre nós. 


Diana Neves
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