Torna-se claro que Reichardt tem algo a dizer, a forma como o diz é que podia ser mais interessante.

Torna-se claro que Reichardt tem algo a dizer, a forma como o diz é que podia ser mais interessante.

2006
Drama
de Kelly Reichardt, com Daniel London, Will Oldham, Tanya Smith e Robin Rosenberg


Escapismo é a palavra de ordem no filme da realizadora Kelly Reichardt, coescrito pela mesma e por Jonathan Raymond. Bem-intencionado e de curtíssima duração, a maior qualidade de Old Joy acaba por ser também a sua queda: o facto de usar e abusar da contemplação da natureza, sem contar com um argumento denso o suficiente para envolver o espetador na experiência.

A história não podia ser mais simples. Dois amigos de longa data reencontram-se para acampar nas montanhas de Oregon, onde consta haver cascatas maravilhosas. Quem faz o convite é Kurt (Will Oldham), uma pessoa afável mas desleixada e sem rumo na vida. Por outro lado, o seu amigo Mark (Daniel London) está bem resolvido. Além de um emprego, está casado e não tarda a ser chamado de pai. Acompanhados por uma cadelinha chamada Lucy, os companheiros arrancam estrada fora na sua aventura.

A divergência nas formas de ser e de estar das personagens é o catalisador que torna a sua relação tão inerte. Não nos é revelado de imediato, mas é o que se vai extraindo das suas interações, principalmente nos longos períodos de silêncio onde somos convidados a apreciar a quietude com elas. Rapidamente se torna claro que o que os separa é mais do que outrora os unia. Como se Kurt tivesse parado no tempo.

Grande parte do tempo o protagonista do filme é o diretor de fotografia Peter Sillen, encarregado de captar as belas paisagens da localidade. A par da cinematografia está a música composta por Yo La Tengo, que acompanha os cenários com guitarras e baterias que promovem algum ritmo às secções mais aborrecidas. O caráter minimalista da narrativa pode até ser aliciante para quem procura uma experiência mais sossegada, mas o enredo chega a um ponto que estagna.

Mesmo as próprias personagens não têm muito que se lhe diga. Contrastam, é certo, só que são tudo menos cativantes. Oldham, na pele de Kurt, faz com que a personagem vá de caricata (o primeiro ato consegue alguns risos) a simplesmente estranha. London, embora mais discreto na interpretação, é presentado com um papel ainda mais irrelevante.

Durante parte do tempo existe um certo prazer e tranquilidade em ver as árvores passar e os longos campos cobertos de verde. E sendo a fuga da correria da cidade uma das componentes da narrativa, é uma paisagem sugestiva para refletir. Torna-se claro que Reichardt tem algo a dizer, a forma como o diz é que podia ser mais interessante.


por Bernardo Freire