The Miseducation of Cameron Post é um claro exemplo de quando a arte e o ativismo se unem.

The Miseducation of Cameron Post é um claro exemplo de quando a arte e o ativismo se unem.

2018
Drama, Romance | 1h31min
de Desiree Akhavan, com Chloë Grace Moretz, Steven Hauck, Quinn Shephard, Kerry Butler e Dalton Harrod


O drama The Miseducation of Cameron Post, foi vencedor este ano, do Prémio do Júri, no Festival de Cinema de Sundance. É o segundo projeto cinematográfico de Desiree Akhavan, depois de Appropriate Behavior (2014) no qual ela própria também protagonizou e, apesar do baixo orçamento, conquistou a crítica. Com este recente filme, baseado no romance com o mesmo título (2012) de Emily Danforth, o sucesso repete-se. Vale a pena ficar atento aos projetos inovadores desta realizadora.

Cameron Post (Chloë Grace Moretz) é uma jovem rapariga adolescente que na noite do seu baile de finalistas é apanhada aos beijos com uma colega (Quinn Shephard). O resultado? Cameron é enviada para um campo de conversão gay, “Promessa de Deus”, onde encontra jovens na mesma situação. O objetivo? Rezar para ser “curada” da SSA (atração pelo mesmo sexo).  É isso que os dois responsáveis pelo funcionamento, Dra. Lydia Marsh (Jennifer Ehle) e o seu irmão “ex-gay” Rick (John Gallagher Jr.), chamam de homossexualidade – algo que Marsh afirma nem existir. Na sua visão, a única coisa que existe é o pecado que deve ser combatido. A verdade é que neste campo se programam as pessoas para se odiarem a si mesmas. A violência emocional é constante.

O argumento do filme é interessante e inovador, explora a descoberta da sexualidade na adolescência, tal como acontece nos filmes Call Me by Your Name (2017) ou Love, Simon (2018), no entanto desta vez o foco está numa rapariga. A história é contada com a delicadeza necessária e nunca se torna aborrecida. Ficamos curiosos para saber mais sobre o desenvolvimento da personagem principal. Moretz, tem sem dúvida, a sua melhor atuação até agora no grande ecrã.

A edição do filme é dinâmica, sendo o ritmo ideal. Além disso, convém referir que a visão feminina na realização trouxe frutos positivos, em especial, nas cenas íntimas entre as atrizes, isto porque, ao contrário do que aconteceu em filmes como La vie d'Adèle (2013), a figura feminina não é objetivada. Akhavan chegou até a afirmar que deu às atrizes total liberdade nessas cenas para que fossem o mais subjetivas e naturais possíveis.

A banda sonora é ótima e traz uma certa nostalgia. Sentimos uma inspiração vinda dos filmes de John Hughes, em especial do The Breakfast Club (1985). A temática é também sobre jovens, no entanto aqui o castigo é o campo de conversão gay, no limite, o castigo é viver numa sociedade opressora e heteronormativa.

A longa decorre em 1993, num período de grande desinformação que gerou enorme solidão nestes jovens por serem diferentes. A verdade é que ao contrário do que possamos pensar, esta realidade ainda é atual, até mesmo porque o vice-presidente dos EUA é a favor da conversão gay. Akhavan, enquanto realizadora que pertence à comunidade LGBT+, viu neste filme a oportunidade de educar através do entretenimento e acima de tudo criar algo que represente não só a comunidade, mas os adolescentes em geral, sendo que todos passam por uma fase em que se sentem uma aberração. O filme refere a autodescoberta e a descoberta dos outros. Cameron percebe que não é assim tão diferente quando conhece pessoas como ela.

Numa altura em que as minorias, infelizmente, continuam a não ser compreendidas ou aceites, este filme é fundamental. The Miseducation of Cameron Post é um claro exemplo de quando a arte e o ativismo se unem. As mensagens que transporta vão para além da questão da sexualidade, apelando sempre para a liberdade do “eu” – não importa se somos diferentes, temos direito simplesmente a ser, sem condenação. Além disso, a realização apesar de não ser muito experiente percebe-se que tem valor e conteúdo. O futuro quer-se inclusivo.


por Rafaela Teixeira