The Front Runner é a prova que o timing é um elemento importante para escolher as temáticas que se quer debater.

The Front Runner é a prova que o timing é um elemento importante para escolher as temáticas que se quer debater.

2018
Biografia, Drama, História
de Jason Reitman, com Hugh Jackman, J.K. Simmons e Vera Farmiga


É caso raro um realizador ter dois filmes a estrear no mesmo ano, mas Jason Reitman de alguma maneira conseguiu e The Front Runner sai apenas alguns meses após Tully (2018), um filme que achei deveras agradável embora não me tenha varrido os pés como o seu Up in the Air (2009) ou até mesmo Juno (2007). A carreira do realizador canadiano tem variado entre o “meh” e o “eww” com uns raros “wow” ali pelo meio. E este, cai em que categoria?

O filme trata a história real de Gary Hart (Hugh Jackman), o senador do estado do Colorado e candidato a concorrer como representante do partido Democrata às eleições americanas de 1988, às quais é visto como favorito. Quando Gary é confrontando com histórias presentes na comunicação social sobre um possível caso de adultério que possa ter tido, este é colocado entre a espada e a parede, tanto no seu casamento e vida familiar, como nas suas pretensões políticas.

A temática do filme é gritantemente óbvia a qualquer pessoa que esteja a ver com o mínimo de atenção: terão as figuras políticas direito a privacidade, ou para os jornalistas vale tudo para mostrar a verdadeira face dos seus representantes ao público? Onde se desenha a linha? Será que a vida privada de um político, neste caso a vida familiar, é relevante para como este vai dirigir o seu país?

O filme não dá respostas, apenas levanta as questões e deixa quem está do outro lado do ecrã decidir por si mesmo. O que é bom, mas também é mau. Passo a explicar. Se pensarmos um pouco, estes temas tornaram-se quase irrelevantes. Estou a escrever isto enquanto vejo Donald Trump a fazer o seu discurso do Estado da Nação. Um homem cor-de-laranja, bilionário, acusado e julgado em múltiplos casos de crimes financeiros ou de assédio sexual, um homem apanhado num áudio a dizer “grab them by the p***y”, entre outras mil e uma peripécias que são conhecidas por toda a gente. Ninguém quis saber se era sexista, racista ou simplesmente um urso. A verdade é que está lá e pelo andar da carruagem assim vai continuar.

Isto retira um impacto gigante à história e às temáticas que estão a ser abordadas, portanto acaba por ficar a pergunta: será que isto é uma história que realmente mereça ser contada numa longa-metragem com atores de tão elevado calibre? Pessoalmente não acho.

Não que seja um mau filme, porque está longe de o ser. Tem alguns momentos interessantes e, para o bem ou para o mal, as questões que levanta são legítimas o suficiente para manter o espetador interessado. Hugh Jackman não tem uma performance extraordinária, mas é mais do que aceitável e chega para que o filme não se torne uma mão cheia de aborrecimento, embora para mim quem tenha tido o melhor trabalho tenha sido provavelmente J.K. Simmons. Mas verdade seja dita, nenhuma personagem teve qualquer tipo de desenvolvimento. Nem mesmo a nossa personagem principal que acabou por se manter fiel a todos os seus ideias do principio ao fim do filme, tornando tudo isto uma experiência ainda mais pobre, visto que não se vê um arco narrativo decente num leque gigante de pessoas a serem representadas.

Até o nível técnico é mais do que aceitável, mas não muito mais que isso, com uma fotografia quase sempre impaciente e dinâmica que espelha bem o caos que são estas campanhas eleitorais. Talvez algum uso excessivo de zooms lentos, mas isto talvez já seja eu a ser picuinhas devido a esta hora tardia em que vos estou a escrever.

The Front Runner é a prova que o timing é um elemento importante para escolher as temáticas que se quer debater. Longe de ser mau, falta-lhe mais qualquer coisa. Algo que não consigo especificar exatamente porque a história em si não oferece muito com que se trabalhar. Voltando à pergunta que vos deixei no início, o último filme de Jason Reitman, é um respeitável “meh”.


por Rafael Félix