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The Farewell(2019)

Há 13 dias | Comédia, Drama, | 1h38min

de Lulu Wang, com Awkwafina, Tzi Ma, Shuzhen Zhao e Diana Lin


Se a vida te dá limões, faz limonada. Mas se a vida for um bocado menos simpática e der cancro nos pulmões à tua avó que vive na China, então faz um filme. Pode parecer macabro ou uma piada de mau gosto, mas é estranhamente verdade. The Farewell é baseado na experiência da realizadora chinesa-americana Lulu Wang aquando do diagnóstico fatal à sua avó e de como, seguindo a “tradição” chinesa, a sua família lhe escondeu a verdadeira gravidade da sua condição de forma a poupar-lhe o peso desse fardo.

A personagem principal é Billi (Awkwafina), uma jovem escritora nascida na China, mas criada em Nova Iorque. Ao saber do diagnóstico à sua avó (Shuzhen Zao), parte para a China de modo a encontrar-se com a família para um casamento falso que apenas serve como desculpa para juntar todos à volta da idosa e dar-lhe uma última alegria antes de partir. O conflito? Billi não acha correto esconder a doença. Portanto põe-se a questão, contar a verdade e “matar” a avó, ou mentir e carregar esse peso por ela?

E mais uma vez a A24, como é habitual, faz as apostas certas. Pode não ter produzido, mas adquiriu os direitos de distribuição, e percebe-se porquê. Este filme tem A24 escarrapachado em todo o lado: drama indie multicultural por uma realizadora relativamente desconhecida, lindo esteticamente e com personalidade. São os ingredientes habituais da produtora mais interessante dos últimos anos e são todos caraterísticas de The Farewell.

Mais importante que a questão ética sobre a temática central do filme “uma terrível verdade ou uma mentira piedosa?”, é a perspetiva cultural que circunda esta mesma pergunta. É clara uma divisão social entre os valores Orientais e Ocidentais, espelhada por uma personagem dividida entre estas duas tão diferentes abordagens à mesma interrogação.

E é nesta vertente que o filme é mais forte. Quando pesa a cultura tradicional Chinesa com a modernidade livre da civilização Ocidental e as coloca de frente para Billi que tem neste dilema uma questão bastante mais profunda do que aquilo que pode parecer no início.

Mas esta medição do que é que resulta melhor na película de Wang pode variar. Como é óbvio, o tema de saber lidar com a morte e o medo da perda é o condutor emocional que nos leva pela mão durante os 98 minutos. A universalidade do tema é a cola que une todas as divisões culturais que o filme levanta, porque no seu centro, há algo a que qualquer pessoa, de qualquer etnia e de qualquer idade se podia identificar, tornado aquilo que podia ser uma história bastante mais conflituosa e dramática, em algo genuíno e fácil de simpatizar.

A genuinidade tão aprofundada do filme, nestes dramas familiares, nas pequenas conversas de pessoas à mesa ou no meio de uma festa não deixam maneira de não deixar um bocadinho do coração ali na tela, naquela família que está tão culturalmente distante, mas parece tão a nossa ao mesmo tempo. Há uma fração de todos nós neste filme, seja por termos aquele laço tão apertado com os nossos ou se simplesmente vemos ali projetado, no ecrã, aquilo que desejaríamos ter, e que a vida maldita, por uma ou outra razão, não o permitiu.

The Farewell pode ser bem atuado, muitíssimo bem filmado e ter uma fantástica banda sonora, mas é a beleza genuína do seu guião, relevância e universalidade dos seus temas e até a ausência de uma resposta certa à sua temática principal que o tornam um dos filmes mais carregados de sentimento do ano.


Rafael Félix
Outros críticos:
 Alexandre Costa:   7