Suspiria é imperdível para os amantes de terror, estudantes de cinema e cinéfilos.

Suspiria é imperdível para os amantes de terror, estudantes de cinema e cinéfilos.

1977
Terror | 1h38min
de Dario Argento, com Jessica Harper, Stefania Casini, Alida Valli, Joan Bennett e Flavio Bucci


Já com uma bagagem extensa de filmes giallo (sub-género cinematográfico com componentes de mistério, thriller e crime, maioritariamente associado a obras italianas), como L’ucello Dalle Piume di Cristallo (1970), Il Gatto a Nove Code (1971) e Profondo Rosso (1975), Dario Argento decide pegar em elementos dos gialli, incorporar elementos sobrenaturais ao género e criar Suspiria. Além de realizador, foi também co-argumentista da obra juntamente com Daria Nicolodi e é o primeiro da trilogia Le Tre Madri, constituído por Inferno (1980) e La Terza Madre (2007), mas é Suspiria que é considerado o melhor filme de Argento. Foi aquele que ganhou o estatuto de clássico e que hoje em dia tem uma base de fãs bastante forte.

Suspiria é um filme surpreendentemente progressivo e os visuais de Argento evocam o mundo fantástico dos contos de fadas, envolvendo e brincando com a glória da Golden Age da Disney, com influências de Snow White and the Seven Dwarfs (1937). Outros elementos foram retirados do projecto Suspiria de Profundis (1845), uma colecção de ensaios de fantasia psicológica escritos por Thomas de Quincey, e também do filme The Secret Beyond the Door... (1947) de Fritz Lang.

Suspiria começa com uma estudante de ballet Americana, Suzy Bannion (Jessica Harper), que chega durante uma noite de tempestade, a uma prestigiosa academia de dança na Alemanha. À porta, cruza-se com uma rapariga aterrorizada que sai a correr loucamente da escola. Ao tocar à campainha, Suzy fala com alguém pelo inter-comunicador, que a impede de entrar na escola. Assim, cansada e encharcada, Suzy decide passar a noite num hotel confortável. A rapariga que fugiu não tem tanta sorte: é morta de uma das formas mais brutais e chocantes que já vi em filme. No dia seguinte, Suzy consegue finalmente entrar na academia e conhece os professores e os estudantes desta escola, mas há algo que não parece certo. Uma série de eventos bizarros acontecem com regularidade, e aqueles que se aproximam demasiado da verdade são “despachados” de forma grotesca.

The only thing more terrifying than the last 12 minutes of this film, are the first 92.

Nota: tagline oficial do poster original de Suspiria

Não é necessário dar ênfase ao enredo de Suspiria, pois na sua maior parte é ilógico e por vezes absurdo. O objectivo da escola e dos seus funcionários desenvolve-se lentamente, assim como a construção do seu clímax. Por isso, se estão à procura de uma história brilhante com twists e revelações, Suspiria não é nada disso. Também não é uma mostra de brilhantes actuações, com algumas performances toscas, cómicas e medíocres. As personagens em si não são especialmente memoráveis e as motivações dos “maus da fita” não são propriamente estonteantes. Então porque é que é considerado um clássico?

Suspiria é daqueles filmes que são prazerosos de uma forma mais primordial, em vez de nos satisfazer intelectualmente. Devem ver Suspiria porque visualmente é distinto de tudo aquilo que já viram antes. Garanto que é um dos filmes mais bonitos e visualmente espetaculares que alguma vez vão ver na vida, sendo um claro exemplo de style over substance. É suposto nós nos rendermos à cinematografia e contemplar a beleza, que é de facto, hipnótica. Atrai o espectador pois fornece uma experiência puramente sensorial, artisticamente é de cortar a respiração. A sua execução técnica está perto da perfeição, graças ao seu enredo minimalista, que põe de lado o desenvolvimento da narrativa para dar espaço e controlo à estética. Cada frame é uma verdadeira obra-de-arte e Dario Argento não é um mero cineasta, é um artista que afoga as suas imagens em cores surreais, abusa de close-ups e ângulos de câmara ousados e usa de forma criativa a luz e as sombras.

A simetria nos planos e a utilização magistral de cores – os cenários são banhados em vermelho garrido, amarelos, azuis e verdes – dão a todo o filme uma intensidade alucinatória. A cinematografia de Luciano Tovoli é vibrante, e os seus visuais enfatizam as cores vívidas, enaltecendo o terror e a natureza de sonho – ou pesadelo. Como consequência, as diferentes divisões da escola começam a ter um significado próprio de acordo com a paleta usada. Estas tonalidades combinam eficazmente com os constantes movimentos de câmara.

Em adição à atmosfera surrealista, Suspiria conta com temas de Goblin, uma banda de progressive rock. Gritos, sons sibilantes, lamúrias e murmúrios diabólicos, aumentam o suspense das cenas dando a sensação que estamos numa outra dimensão. A música ganha vida própria, praticamente tornando-se uma personagem. Por norma, a música nos filmes de terror é composta a posteriori, mas em Suspiria foi ao contrário, tornando-se dos melhores exemplos do quão essencial boa música, especialmente bem pensada, pode fazer por um filme.

Praticamente todo o filme foi dobrado em pós-produção, isto é, nenhuns dos diálogos gravados nas filmagens está presente. É de conhecimento geral que esta era a norma da indústria cinematográfica italiana nesta época, por ser considerado mais fácil simplesmente re-dobrar os filmes do que propriamente gravá-los ao vivo. Argento insistiu para que cada actor falasse na sua língua nativa, dobrando em italiano na pós-produção. Pode ser um factor que incomode os espectadores, mas felizmente, este não é um filme cheio de falas.

Suspiria permanece uma verdadeira experiência cinematográfica, e mesmo passados cerca de 40 anos o filme não envelheceu. Desde as sequências contínuas de terror, à tensão constante e às mortes sangrentas, horrendas e cruéis – ainda que extremamente belas – continua a colocar muitos filmes actuais do mesmo género a um canto. Suspiria é um dos absolutos clássicos do género, imperdível para os amantes de terror, estudantes de cinema e cinéfilos, que o devem ver pelo menos uma vez na vida.


por Sara Ló