Sorry to Bother You sofre de uma espécie de síndrome por querer expressar todas as suas ideias numa história só.

Sorry to Bother You sofre de uma espécie de síndrome por querer expressar todas as suas ideias numa história só.

2018
Comédia, Fantasia, Sci-Fi | 1h51min
de Boots Riley, com Lakeith Stanfield, Tessa Thompson, Jermaine Fowler, Omari Hardwick e Terry Crews


Parte do cinema corrente está um pouco acomodado. Fórmulas de sucesso são repetidas, personagens são emuladas e várias franquias estão a ser renovadas. Mas temos tido surpresas agradáveis ao longo deste ano, exemplo disso são os cineastas Ari Aster (Hereditary) e Bo Burnham (Eighth Grade) que espevitaram a 7º arte com engenho e ambição. Mas por muito louvável que seja ter ambição, tê-la em excesso pode ser comprometedor. É neste domínio que entra Sorry to Bother You, realizado e escrito pelo estreante Boots Riley.

Estamos num futuro próximo em Oakland, América, e as pessoas lutam para puder pagar a renda à mercê de grandes empresas. Cassius Green (Lakeith Stanfield) é uma dessas pessoas. Desempregado e a viver com a namorada (Tessa Thompson) na garagem do seu tio, a sorte surge em forma de contrato de trabalho para uma empresa de telemarketing chamada RegalView. Inicialmente é um desastre, mas quando aceita o conselho de um colega e começa a usar uma "voz de branco", as suas vendas disparam. O que estará Cassius disposto a perder para chegar ao topo da cadeia corporativa?

Esta é uma introdução minimalista a uma sátira explosiva em conceitos e comentários sociais. Desde o capitalismo ao próprio telemarketing, passando pelo racismo sistémico e pela relação trabalho-família, o filme funde os tópicos e oferece uma comédia tão desorganizada quanto ousada. A primeira metade pode até recordar o filme Office Space (1999), mas ainda assim consegue trespassar uma experiência de natureza surrealista.

Ao tentar tocar em situações reais do dia-a-dia, as propriedades ridículas da narrativa afastam a seriedade das matérias, o que faz com que a sátira perca força e foco. O desenrolar da história só vem perpetuar este problema, nomeadamente quando o elemento de ficção científica surge, trazendo com ele mais estragos do que correções.

É pena porque no campo das interpretações não há muito a apontar. Stanfield encarna o protagonista com um sentido de insegurança e melancolia que condizem com o tom que o filme pretende atingir. E o outro destaque vai para Armie Hammer que interpreta o CEO de uma grande empresa de forma desprezível e carismática ao mesmo tempo (podia ter tido mais preponderância, o filme precisava dele). O restante elenco secundário é prestável, mesmo quando os seus subenredos acabam por não dar em nada.

Sorry to Bother You sofre de uma espécie de síndrome que aflige parte dos realizadores que expõe os seus primeiros filmes: querer expressar todas as suas ideias numa história só. Não há dúvidas da paixão de Boots Riley pelo projeto e é bom que cada vez mais cineastas estejam dispostos a arriscar, contudo, parte do humor não cai bem e a narrativa não tem alicerces para suster tantas ideias. Como muitos que tentam o mesmo fim, acabou por desabar.


por Bernardo Freire