Solum não é incrível, mas também não é mau. Considero-o sobretudo diferente e agradável.

Solum não é incrível, mas também não é mau. Considero-o sobretudo diferente e agradável.

2019
Thriller
de Diogo Morgado, com Maria Botelho Moniz, Carlos Carvalho, Francisco Froes, Luís Lourenço, Anna Ludmilla, Catarina Mira e Diogo Morgado


Não me considero apreciador do cinema comercial português, infelizmente. Tentei gostar, tentei conhecer diversas obras, mas o nosso cinema para massas possui medo de apostar em produções diferentes, de sair da zona de conforto e entrega-nos longas-metragens que variam entre o medíocre e o terrível.

 

Confesso que quando vi o trailer de Solum, pensei que se tratasse de mais uma obra trash inspirada em The Hunger Games (2012-2015), entretanto, informei-me e descobri que é realizado pelo fantástico Diogo Morgado, que co-escreveu o argumento com o seu irmão, Pedro Morgado e que segundo o que li algures na internet, foi totalmente financiado pelo próprio artista. Só o facto de uma grande personalidade investir no seu próprio projeto, tentar dar-lhe vida e lidar com todas as implicações orçamentais é algo que lhe dá mérito.

 

À primeira vista, a premissa inicial de Solum é extremamente parecida com a de The Hunger Games (2012-2015) ou do terrível RPG (2013), apresenta-nos um grupo de adultos que concorrem num reality show, cuja premissa é determinar quem será o último a sobreviver numa ilha selvagem, no entanto, nem tudo é tão simples como eles pensavam.

 

A sua narrativa pode parecer pouco original até nos apercebermos das motivações do argumento, que nos levam para um patamar diferente daquilo que esperávamos ver. No qual nós, enquanto espetadores, questionamos sobre tudo o que visualizamos no ecrã e consequentemente refletimos sobre a grande mensagem do filme relativamente ao impacto do ser-humano no meio ambiente. Sim, Solum propõe-se a alertar-nos para a condição atual do nosso planeta e até que ponto os nossos piores atos colocarão toda a vida natural em risco. Tudo isto manifestou -se como uma agradável surpresa. Não esperava uma visão tão complexa, na realidade esperava observar somente meia-dúzia de personagens a matarem-se umas às outras sem qualquer fundamento.

 

Apesar dos pontos positivos referidos, o argumento também sofre com algumas más decisões, uma delas é a péssima contextualização das personagens, pois torna-se quase impossível criar empatia quando parecem todas iguais e isso baixa imenso a qualidade desta obra. Eu sei que em termos de desenvolvimento narrativo seria complicado apresentar mais informação sobre o passado de cada uma, mas deveriam ter explorado esse aspeto com maior detalhe.

 

Relativamente às personagens, o elenco varia entre o bom e o fraco, nota-se que alguns atores não se sentem confortáveis com o idioma inglês e outros exageram nas suas reações durante algumas cenas. Na minha visão, forneceria uma camada mais dramática e realista se colocassem realmente atores de diferentes nacionalidades no filme e apresentassem as suas personagens a lutarem contra as limitações linguísticas.

 

Num prisma técnico, consegue ser superior a uma grande parte de outras obras nacionais. A banda sonora é boa, mas usam e abusam dela em demasiadas cenas, ao ponto de irritar um pouco. Os efeitos visuais assumem-se um dos aspetos mais curiosos, porque são excelentes nas situações mais exigentes e um pouco fracos em momentos básicos e simples, mesmo assim considero como um aspeto positivo, é injusto efetuar comparações com grandes blockbusters de Hollywood porque normalmente possuem um orçamento 50 vezes maior. Por sua vez, a fotografia é magnífica, entrega-nos belos planos, usa uma tonalidade que lhe fornece identidade cinematográfica e tudo isso também é ajudado pelos belíssimos cenários do arquipélago dos Açores.

 

Solum não é incrível, mas também não é mau. Considero-o sobretudo diferente e agradável, não o aconselho a qualquer espetador porque é uma obra que nos submete a um poderoso processo de reflexão sobre a consequência dos nossos atos no meio-ambiente. Possui pequenos problemas técnicos, tem dois ou três membros do elenco que deveriam questionar a sua carreira na Sétima Arte e poderia não hesitar em explorar todo o seu conceito, mitologia e o background que envolve cada uma das personagens (ganharia imenso com isso), mesmo assim acaba por se afirmar diferentes de todas as produções comerciais do nosso país. Para o bem e para o mal, possui o mérito de arriscar em nos trazer algo distinto.


Assistam-no, não agradará a alguns espetadores, mas poderá surpreender outros. É bom observar alguém como o Diogo Morgado e o Pedro Morgado a investirem em novos projetos enquanto se distanciam das vulgaridades enraizadas no nosso cinema.


por Pedro Quintão