Solo desafia a linha entre o certo e o errado, focando-se na falta de humildade e falta de empatia para com aqueles que nos rodeiam.

Solo desafia a linha entre o certo e o errado, focando-se na falta de humildade e falta de empatia para com aqueles que nos rodeiam.

2018
Neo-Noir, Mistério
de Pedro Horta, com Diogo Simão, Mário Spencer, Sara Mendes Vicente, Pedro Palmela e Karen Rodrigues.



De forma a dar destaque aos jovens talentos de Portugal, esta crítica será dedicada ao último projeto realizado por Pedro Horta, fundador e crítico do Cambada de Críticos. Horta já conta no seu currículo com a mini-série de quatro episódios Preso no Tempo (2016), o documentário Ser de Faro é Ser Farense (2017) e as curtas-metragens 3GO (2016) e Amor com Amor se Paga (2015). A sua última criação, Solo, esteve presente na secção NEXXT do Festival de Cinema FEST em Junho de 2018, em competição com outros trabalhos académicos de toda a Europa.

Com argumento de Tiago Pereira e cinematografia de Flávio Saldanha, Solo é uma curta-metragem neo-noir que começa com uma performance musical de uma banda de Jazz, que tem como líder o saxofonista J (Diogo Simão) e o seu baterista e mentor Armando (Mário Spencer). Durante a atuação, Patrícia (Sara Mendes Vicente), uma mulher com um ar traiçoeiro e olhar implacável, observa J atentamente. Logo após o concerto, o músico encontra na mala do seu saxofone um coração. A mulher misteriosa desaparece da sala, antes que J consiga descobrir o que se passa.

O que é que tu vieste aqui fazer? É só provocar não é? De certeza que ninguém te convidou.

Diogo Simão, realizador da curta-metragem Trindade (2017), apresentada no Short Film Corner de Cannes, aparece em Solo do outro lado das câmaras, ao interpretar um anti-herói em conflito que se depara com uma circunstância estranha e difícil de resolver. Um protagonista sombrio, preso numa situação invulgar e bizarra, cai nas armadilhas de uma femme fatale, fazendo escolhas que irão marcar para sempre a sua vida.

Esta rendição contemporânea dos filmes noir, adaptado a uma temática mais moderna, inclui os elementos visuais elementares do género de uma forma eficaz, como o contraste de preto e branco, a forma como são utilizadas a luz e a sombra, e a sua envolvência num ambiente negro e situação improvável. Com uns toques estilísticos de Schindler’s List (1993) e Sin City (2005), é premissa aliciante e a dinâmica entre as três personagens principais que nos deixam intrigados e esse sentimento mantém-se até ao desfecho da obra.

Com cerca de 14 minutos, Solo desafia a linha entre o certo e o errado, o bom e o mau, focando-se numa temática real dos dias de hoje que espelha a nossa alienação, falta de humildade e falta de empatia para com aqueles que nos rodeiam. Pedro Horta apresenta-nos uma entrada competente na sua filmografia, com uma curta-metragem com uma personalidade mais vincada que as anteriores e que melhor expressa a sua visão, fazendo-nos estar atentos ao seu percurso como realizador.


por Sara Ló