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Disturbing the Peace(2020)

Há um mês | Ação, | 1h30min

de York Alec Shackleton, com Guy Pearce, Devon Sawa, Kelly Greyson, Michael Sirow e Barbie Blank


Nos últimos dias tenho-me dedicado a ver filmes que serão, à partida, os chamados menos bons. Vale sempre lembrar que eu acho que há lugar para tudo nas artes, cada um tem direito a expressar-se à sua maneira ainda que deva sempre estar aberto a ouvir bem e mal sobre o seu trabalho. Ainda assim, há coisas que eu coloco no balde “é arte, não gosto, mas aceito” e outras que meto no balde “isto foi mau em todos os aspetos da palavra”. E não vos vou se quer sujeitar ao politicamente correto: Disturbing the Peace é péssimo.

Antes de avançar, um resumo sobre o que fala o filme. Jim Dillon (Guy Pearce) é um Marshal que, juntamente ao seu parceiro Matt Reynolds (Michael Sirow), garante a segurança de uma pequena vila. Dillon não se faz seguir de uma arma, depois de 10 anos antes, ter acidentalmente alvejado o seu parceiro da altura que viria a morrer. No entanto, Dillon e Reynolds vêem-se reféns, juntamente a toda a vila, quando um grupo de motards decide intercetar um caixa-forte que vai entregar dinheiro ao banco.

Podia entrar pelo facto de ser notável que o filme não é produzido com a melhor qualidade do mercado, que não tem a melhor câmara ou o melhor equipamento de som mas isso é o mais desculpável aqui. A partir dos primeiros segundos de filme, temos obrigatoriamente de perceber que Disturbing the Peace é para se olhar com outros olhos que não os de Hollywood, porque não o fazendo, estaremos a julgar uma obra pelo lado errado e sem noção.

A verdade é que se fossem esses os problemas do filme, eu estaria a ser mais brando e a colocar esta obra no lado dos filmes independentes e sem orçamento que, lá está, também têm e devem ter espaço no mundo do cinema. Então quais são os problemas de Disturbing the Peace, perguntam-se vocês? Bem, para começar, “sem orçamento” não entra aqui porque estima-se que o orçamento da obra tenham sido só uns 5 milhões.

Vamos então ao que realmente importa. O guião de Chuck Hustmyre é ridiculamente sem sentido, sem qualquer noção de uma estrutura narrativa e não só não tem qualquer construção de personagem, como usa e abusa do maior número de personagens e ainda tenta entregar tempo de antena a todos. Chegamos a pouco mais de um terço do filme e não sabemos quem é quem e se quer porque raio está tudo aos tiros. As personagens tomam decisões sem qualquer sentido e deslocam-se a locais sem razão aparente. O filme podia ter tido apenas uns 10 minutos se toda a gente fosse fazer o que realmente deveria fazer.

As performances são muito más, mas mesmo muito más. Parece que um grupo de amigos se juntou, sem qualquer experiência ou interessem em acting e se pôs à frente de uma câmara. E estamos a falar de um filme que tem Guy Pearce e eu incluo o Pearce nesse grupo de amigos. Não há sentido nas ações, nas emoções ou se quer nos movimentos das personagens. Há diálogos cobertos por uns 10 planos em que nenhum dos intervenientes se mexe, simplesmente ali estão a despejar texto. Mas isto tem a ver com a realização, mas já lá vamos.

E se o elenco não está bom, o que dizer dos figurantes? Lembram-se de eu falar de um grupo de amigos? Pois bem, os figurantes são aqueles que não queriam mesmo estar à frente da câmara, mas alguém lhes disse “epá, não te preocupes, só tens que estar ali parado, mais nada.” e bem… Houve quem levasse isso à letra.

Por fim, o grande problema do filme: York Alec Shackleton. O realizador norte-americano tem tantas noções de como realizar um filme como o meu sobrinho de 5 anos. Quebra regras básicas de realização como saltar os eixos. Temos personagens à direita, depois à esquerda. É uma confusão total. A câmara na maioria das vezes não cobre metade da ação que se está a desenrolar, há perseguições a 10 km/h para que a câmara as possa cobrir e existem cenas que não avançam em nada a narrativa. Aliás, só servem para justificar o filme ter 90 minutos, porque isto poderia ter 10 minutos, na boa. E estamos a falar de um realizador que, de alguma maneira, já trabalhou com Nicolas Cage – em 211 (2018) – e, agora, com Pearce.

Em resumo, Disturbing the Peace nem chega a ser desculpável. Tem orçamento, tem Guy Pearce, mas não tem noções básicas de como fazer um filme. Shackleton deveria primeiro perceber as coisas mais simples de uma realização, antes de se pôr a inventar e começar a fazer filmes com tiros e explosões.

Oh Pearce, tu sabes que já tiveste no Memento (2000), certo?


Pedro Horta
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