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When a Woman Ascends the Stairs(1960)

Há 13 dias | Drama, | 1h51min

De Mikio Naruse, com Hideko Takamine, Masayuki Mori, Reiko Dan, Tatsuya Nakadai, Daisuke Katô, Ganjirô Nakamura e Eitarô Ozawa


É plausível pensar que em 1960 um cineasta japonês não fizesse cinema sobre a opressão do sexo feminino. Quanto muito, podia desviar ou suportar o tema. Mas não Mikio Naruse, que por acaso tinha esta matéria como preferida nos seus filmes. Isso é altamente visível no melodrama When a Woman Ascends the Stairs, um dos últimos projetos da sua longa carreira. Mesmo 60 anos depois, continua relevante quer na sua estética como no seu conteúdo, sendo o ritmo o principal fator desmotivador.

Keiko Yashiro (Hideko Takamine) é uma viúva atraente que se vê forçada a trabalhar num bar enquanto acompanhante. Ou seja, alguém que faz companhia aos clientes, bebendo e trocando impressões sem qualquer tipo de contacto sexual. Chegada uma certa idade, é esperado que Keiko tome uma das seguintes opções: Abrir o seu próprio bar ou encontrar um marido que a possa sustentar. Na sociedade patriarcal de Tóquio dos anos 50, cada escolha tem os seus senãos.

"Odeio subir estas escadas", reflete Keiko, frente a outra noite de trabalho. Um trabalho que a confina por dentro e por fora. É obrigada a estar apresentável, bonita, com as roupas tradicionais do melhor material. Um esquema visual que mantém os homens no estabelecimento, mesmo que seja para esquecer o dia que tiveram. Abrir um bar implicava ficar presa a um estilo de vida que desprezara, mas a hipótese não está fora da mesa.

A outra opção também não é particularmente ideal. No mundo masculino sujo de Naruse, mesmo o casamento é uma forma de prostituição, uma renúncia da liberdade em prol de segurança financeira. E ainda que não lhe faltem pretendentes - seria difícil com tamanha beleza e virtude - ela é bastante solitária e difícil de conquistar. Para alguns, isso faz de Keiko o fruto proibido, que como se sabe, é o mais apetecido.

No papel principal, Takamine não é muito expressiva mas capta as emoções necessárias nos momentos certos, disfarçando alguns momentos de angústia com um sorriso acolhedor. O facto de ser politicamente correta em vários instantes limita o seu alcance, no entanto, compensa com gestos subtis que carregam continuamente o filme. Através da atriz temos acesso à alma da personagem, o que acaba por mitigar o facto de a narrativa por vezes ter momentos de excessiva quietude, ao bom estilo naturalista do cineasta. 

When a Woman Ascends the Stairs pode ser uma crítica a um contexto social específico, todavia, ultrapassa as barreiras linguísticas e culturais que podiam muito bem distanciar o espetador para contar uma história que atinge um sentido universal. Ironicamente, fazer paralelismos com algumas frentes da sociedade contemporânea não seria esticar muito a corda. O que confere uma intemporalidade inquietante a uma narrativa filmada em tons marcantes de preto e branco que devia estar completamente desatualizada.


Bernardo Freire
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