Inscreve-te e tem vantagens!

Irréversible(2002)

Há 15 dias | Crime, Drama, Mistério, | 1h33min

de Gaspar Noé, com Vincent Cassel, Albert Dupontel e Monica Bellucci


A segunda longa-metragem de Gaspar Noé e também a que muitos consideram a mais controversa, Irrevérsible é uma obra inesquecível, para o bem ou para o mal. O enredo segue os acontecimentos de uma noite traumática em Paris, em que Marcus (Vincent Cassel) e Pierre (Albert Dupontel) procuram vingar a agressiva violação da namorada e amiga, Alex (Monica Bellucci).

Os eventos são estruturados de forma oposta à tradicional, ou seja, em ordem cronologicamente inversa, começando no fim e acabando no início. Deste modo, pouco temos senão uma pequena introdução para estabelecer o tom até sermos catapultados para o centro do furacão. Há escasso tempo para respirar entre e durante as diversas cenas, uma vez que são gravadas continuamente por uma câmara que se mexe de acordo com o nível de tensão e ligadas por transições dinâmicas.

O que resulta é uma experiência bastante sensorial, produto do trabalho de câmara, edição, cinematografia e banda sonora equivalente às várias emoções que os acontecimentos provocam. Constrói-se, assim, um ambiente muito forte, bruto e difícil de presenciar, que provoca um debate interior entre persistir e desviar o olhar. Sentimos tudo o que Gaspar Noé quer que sintamos e por isso, no meu caso, acaba por ser um filme que não gostei propriamente ou voltaria a ver, mas que admiro.

Vários momentos foram improvisados pelos atores, que convêm uma impressionante naturalidade nos seus papéis que não consigo descrever bem. Tornaram tudo muito verdadeiro, dos diálogos às expressões e a química duns com os outros. Para mim, Monica Bellucci destacou-se especialmente, tanto pela dificuldade de uma cena em particular, como pelo meu alívio por também ter sido dada alguma atenção à sua personagem, em vez de existir apenas para servir um propósito.

Como já tinha referido, é um filme decididamente controverso no que toca a múltiplos aspetos. Há a óbvia e impiedosa violência, bem como os momentos de racismo e homofobia. Apesar de, tal como qualquer outra pessoa, perceber a origem destas críticas, não penso que a intenção do realizador era defender todos estes comportamentos.

Pelo contrário, logo à partida temos o facto de nenhuma destas cenas ser minimamente agradável de se ver e é mesmo por causa deste cruel realismo que não há espaço para desculpas. A visão exibida é somente correspondente à das personagens principais e ao seu estado de espírito frenético e bárbaro, sendo que em vários momentos nos apercebemos que a maior ameaça para os restantes eram mesmo Marcus, cego no seu propósito, e Pierre.

Dito isto, é certo que não é uma obra para todos, nem para a maior parte das pessoas. Aliás, tenho pouca certeza que sequer seja para mim. Costumo apreciar uma linha positiva nas narrativas, mesmo que esta seja ténue, mas neste caso é praticamente inexistente. Devido à estruturação, até os momentos bonitos, estáveis e carinhosos do “antes” estão cobertos com um véu trágico, sendo dolorosos por já sabermos o futuro.

Assim, passamos por todas as premonições num jogo com a inevitabilidade do destino, em que embora não seja tudo para chocar, tudo provoca algo, quer na sequência de eventos, quer no espetador. Gaspar Noé diz-nos que o tempo destrói tudo e mesmo que não saiba até que ponto concordo com a afirmação, se há alguma história em que esta se enquadra é na que Irréversible conta.


Margarida Nabais
Outros críticos:
 Rafael Félix:   10
 Alexandre Costa:   8
 Bernardo Freire:   8