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Portrait de la jeune fille en feu(2019)

Há um mês | Drama, Romance, | 1h59min

de Céline Schiama, com Noémie Merlant, Adèle Haenel e Luàna Bajrami


Se imediatamente a seguir ao Festival de Cannes me tivessem perguntado que filme queria mais rever, a resposta era Portrait of a Lady on Fire. O mais recente filme da realizadora francesa Celine Sciamma responsável por Tomboy (2011) ou Bande de filles (2014) e argumentista de Ma vie de Courgette (2016) tem sido como uma farpazinha na minha memória desde Maio passado. Foi o último filme de um dia bastante preenchido, a cabeça já estava cansada e ficou a ideia que talvez não lhe tenha dado a atenção que se exigia. Mas já resolvi esse problema.

Marianne (Noémie Merlant) é uma pintora contratada para fazer o retrato de uma mulher. Esse retrato por sua vez será entregue ao seu futuro marido, arranjado pela sua mãe em Itália. O problema? Héloise (Adèle Haenel) recusa-se a posar pela simples razão de não querer um casamento com alguém que não conhece. Portanto Marianne tem de esconder o seu propósito e apenas acompanhar a sua solitária modelo, e pintá-la apenas de memória em segredo desta.

Depois de ver pela segunda vez, fui ouvir algumas entrevistas de Sciamma relativas a Portrait, e numa conversa com o British Film Institute a realizadora descreveu o filme como “o ato de filmar o desejo”. E acho que dificilmente podia ter descrito melhor esta possível obra-prima que aqui arquitetou. É como se o “apaixonar” tivesse sido completamente gravado na tela, tanto do filme, como da própria tela que Marianne tenta pintar, tentando lembrar-se de cada detalhe da sua modelo, mas a única coisa que produz, é vã ideia que ela projeta de Héloise. É um exercício interessante do quão diferentes são as formas como perspetivamos os outros, e como os outros realmente são (ou se perspetivam a eles mesmo, se quisermos ir mais longe).

O filme mais parece uma partida de xadrez entre as nossas duas personagens. Cada frase é como uma jogada que tenta desvendar o próximo movimento do oponente, para se conhecerem mutuamente, num duelo que a certa a altura se começa a tornar hipnótico. Todas as falas são ditas sem pressas, lentamente, com pausas longas entre elas, que realmente tornam o filme mais vagaroso, mas na realidade cria um estranho sentido de suspense pela completa ausência de expectativa do que vamos desvendar das nossas personagens na fala seguinte. E atenção, é um jogo brilhante.

Por causa disto, todo o peso de Portrait cai sobre os ombros das duas atrizes principais, porque é nelas e só nelas que está o corpo e alma do filme. Não que isto retire o facto de este ser um dos filmes mais bonitos, em termos visuais, do ano, com imensa cor (foi gravado em 8K para conseguir reter o máximo possível), longos takes e enquadramentos belíssimos que apenas aprimoram a atmosfera em que Marianne e Héloise lentamente se deixam derivar. Mas nada disto funcionaria se estas duas não tivessem dado duas das melhores performances do ano. Os olhares e os silêncios diziam mais do que a maioria dos monólogos finais que vemos nos Oscar Bait que aparecem nesta altura do ano, e só por isso o filme vale a pena.

É muito difícil explicar o quão o trabalho de Sciamma é nada menos que sublime. É algo que precisa de ser experienciado pela tamanha imersão que esta história oferece. É sensual, romântico, voraz e de partir o coração. Tudo isto num filme que tem basicamente três atrizes, algumas telas e uma praia. É o ritmo pausado e a forma como o romance lentamente vai tomando conta do ecrã que nos fazem apaixonar por Portrait of a Lady on Fire.

É o amor trazido para uma tela. Uma carta de amor ao próprio amor, se é que isto faz sentido.

Talvez não faça, mas pelo menos é poético.


Rafael Félix
Outros críticos:
 Alexandre Costa:   8
 Margarida Nabais:   9
 Bernardo Freire:   8