Inscreve-te e tem vantagens!

There Will Be Blood(2007)

Há um ano | Drama | 2h38min

de Paul Thomas Anderson, com Daniel Day-Lewis, Martin Stringer, Matthew Braden Stringer, Jacob Stringer e Paul Dano


O século XXI, apesar de ter começado há sensivelmente 17 anos, já viu o lançamento de filmes brilhantes, únicos, e dignos de serem considerados um dos melhores filmes de toda a história. Muito se mencionou o romance apogístico da carreira de Wong Kar-wai, In the Mood for Love (que, apesar de ter sido lançado em 2000—curiosamente, um ano ainda do século XX—, costuma estar presente na lista das melhores películas deste século), a intrigante viagem pelo universo surrealista de David Lynch, Mulholland Drive (2001), ou até o visceral frenesim que fez George Miller em 2015, Mad Max: Fury Road. Mas de todas as obras-primas que constam da lista das melhores produções deste século, a célebre quinta longa-metragem de Paul Thomas Anderson é a de que vou falar hoje.

Paul Thomas Anderson é um realizador-escritor norte-americano que, desde a segunda metade dos anos 90, nos tem entregado obras de enorme valor e que merecem serem vistas, revistas, e analisadas. Apesar de ter começado levemente em 1996 com um filme sobre a amizade entre um jogador de azar experiente e um homem à procura de dinheiro para pagar o funeral da mãe, Hard Eight, foi em 1997 que a sua imagem de cineasta de topo começou a formar-se, através da história de um lavador de pratos tornado ator pornográfico famoso, Boogie Nights. Voltou a solidificar o seu estatuto em 1999 com Magnolia, uma película que acompanha e interliga várias histórias de pessoas à procura de felicidade, perdão, e de um sentido para a vida, marcando o segundo filme (a juntar a Boogie Nights) largamente influenciado por Martin Scorsese e Robert Altman. Em 2002, Anderson lança Punch-Drunk Love, uma comédia romântica de arte protagonizada por Adam Sandler, e em 2007 dá-nos aquele que é, seguramente e ainda hoje, o pico da sua carreira, da qual me vou debruçar.

Tal como a longa sequência silenciosa de meia hora incidente na descoberta de tecnologia por parte de hominídeos em 2001: A Space Odyssey (1968), Paul Thomas Anderson abre There Will Be Blood com um longo trecho de 15 minutos, no qual não se diz uma palavra, centrado num mineiro, Daniel Plainview (protagonizado por Daniel Day-Lewis), que recebe uma reivindicação de certificado de prata e ouro após ter encontrado um exemplar de prata numa mina que estava a explorar sozinho, no deserto. Quatro anos mais tarde, em 1902, encontra petróleo com a sua equipa, que lhe abrirá as portas para a criação de uma empresa de perfuração com a qual se tornará rico por causa do mar de petróleo que existe por debaixo de uma vila, que irá explorar (por indicação de Paul Sunday, protagonizado por Paul Dano), e na qual irá criar uma relação conturbada com o clérigo local, Eli Sunday, irmão de Paul e também protagonizado por Paul Dano.

Apesar de se ter afastado dos grandes elencos pelos quais Robert Altman foi bastante conhecido, em Boogie Nights e Magnolia, Anderson ainda assim decidiu introduzir um estilo bastante reminiscente do norte-americano, pelo que o filme está recheado de movimentos fluidos da câmara (mistura de pans e tilts), embora esta esteja muitas vezes bastante próxima dos sujeitos. A adicionar a esta realização está a fantástica cinematografia da autoria de Robert Elswit, marcada por defeitos ocasionais da lente e uma iluminação bastante severa e exagerada, que acabam por ajudar eficaz e efetivamente na evocação da altura na qual a história se passa (muito contribuiu também a excelente produção de arte, obviamente). Não é por acaso que Elswit levou para casa o Óscar de Melhor Cinematografia na cerimónia de 2008.

E tal como a mise en scène, o argumento é também igualmente merecedor de uma longa salva de palmas, tanto pela forma como Anderson conseguiu fazer das personagens protagonizadas por Daniel Day-Lewis e Paul Dano personagens com bastante profundidade e essencialmente humanas, como pela forma como o autor norte-americano conseguiu transmitir as suas ideias puramente através de imagens, sendo a tal sequência inicial o exemplo mais gritante. A complementar o guião está a excelente banda sonora de Johnny Greenwood (a primeira colaboração de muitas), uma peça orquestral vanguardista que vai desde atmosferas frias e escuras a moods agitados e estranhos.

Mas entre todos os seus departamentos, o que provavelmente mais brilha é o dos desempenhos. Paul Dano (que se sobressai apenas no corpo de Eli Sunday, por culpa dos poucos minutos que o guião oferece a Paul Sunday) protagoniza uma personagem extremamente religiosa de uma forma explosiva, intensa, e trágica, culminando numa atuação que é seguramente uma das suas melhores. No entanto, como seria de esperar, é Daniel Day-Lewis quem acaba por ser a estrela do filme: duro, cativante, e fascinante, Daniel Plainview por si só já era uma personagem bastante interessante mas Daniel Day-Lewis veste-a de uma forma tão fenomenal que acaba por ser impossível não considerá-la uma das melhores performances deste século, e quiçá de toda a história do cinema, demonstrando mais uma vez o jeito que Paul Thomas Anderson tem de trabalhar com os seus atores. Daniel Day-Lewis foi nomeado para, e efetivamente venceu, o Óscar de Melhor Ator, fechando os dois prémios que o filme arrecadou, entre oito nomeações (incluindo a de Melhor Filme e Melhor Realizador).

Para acabar, There Will Be Blood é, sem qualquer sombra de dúvida, uma obra-prima moderna. Fascinante e espetacular na forma como olha para a ganância, para o capitalismo, para o ódio, e para outros temas, na forma como transporta para o presente uma época já longínqua, e na forma como os seus atores principais interpretam as suas personagens, já para não falar nos maravilhosos departamentos da cinematografia, da produção de arte, e da música: não se pode qualificar o quinto filme do mestre realizador-escritor Paul Thomas Anderson sem se usarem os mais elogiosos adjetivos, dignos de serem usados só para os melhores. Se este não é o pináculo do cinema do século XXI, está seguramente lá perto.


André Azevedo
Outros críticos:
 Sara Ló:   9
 Alexandre Costa:   9
 Rafael Félix:   10