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Sauvage(2018)

Há 6 meses | Drama | 1h37min

de Camille Vidal-Naquet, com Félix Maritaud, Eric Bernard, Nicolas Dibla e Philippe Ohrel


Há uns meses atrás, num website americano sobre cinema de terror, sugeriram-me um filme de terror francês sobre uma série de homicídios numa produtora de filmes para adultos. Entretanto esqueci-me do título e acabei acidentalmente por assistir a Sauvage, pensando que se tratava da longa-metragem que me aconselharam. Bastaram 10 minutos de visualização para entender que me tinha enganado, que na realidade estava perante algo totalmente diferente daquilo que esperava, uma experiência negra, dura, aterrorizante e desconfortável, mas mesmo assim decidi continuar a ver.

 

Sauvage foi lançado na França, o seu país de origem, em 2018. É realizado por Camille Vidal-Naquet, que só possui duas curtas-metragens no seu currículo e o elenco é composto por atores desconhecidos na indústria. A proposta apresentada pelo argumento carateriza-se como algo extremamente simples: foca-se em detalhar o lado psicológico e emocional de um jovem prostituto de rua conhecido por Léo (Félix Maritaud).

 

Não existe um enredo hollywoodesco com uma mensagem otimista sobre o processo de transformação do protagonista, como acontece com tramas do mesmo cariz. A câmara adquire uma função de apresentar o dia-a-dia de Léo, as consequências do seu trabalho, a sua vida como sem-abrigo, a relação com as drogas, a ignorância e sobretudo a solidão. Não é a típica história de superação que a indústria nos habituou, atrevo-me a dizer que quase nada em Sauvage é apresentado de forma positiva e bela, tudo é negativo e depressivo. O interesse narrativo é unicamente a possibilidade de observar como o protagonista lida com os seus problemas, enquanto desencadeia outros.

 

Não é uma experiência audiovisual para todos. Está repleto de situações que envolvem sexo explícito e estas não são as típicas cenas “giras” acompanhadas por uma música de fundo da Beyoncé, que podemos encontrar em qualquer drama erótico. Neste caso, o sexo atinge quase o nível pornográfico e é filmado numa perspetiva de causar repulsa, cujo verdadeiro propósito passa por colocar os espectadores a observarem a sexualidade através da visão do protagonista, como uma necessidade monótona e desagradável. De certa forma, lembra-me um pouco o que Lars von Trier fez com Nymphomaniac: Vol. 1 e Vol. 2 (2013). Outro ponto que torna a sua visualização mais difícil para a maioria dos espectadores, passa pela crueldade em que o quotidiano de Léo é retratado, o protagonista assume-se como um indivíduo inconsciente, emocionalmente perdido, não possui habitação, bebe água através de charcos nas estradas, não tem cuidados com a alimentação, é visto como um mero objeto sexual, e não tem ninguém que o realmente o ame.

 

Toda esta odisseia pessoal é acompanhada por uma fotografia dirigida por Jacques Girault, cuja única crítica negativa neste campo centra-se só no (pequeno) problema da shaky camera, pois de resto está magnífico. Existem planos que não são habituais e resultam de forma brilhante, dando uma visão mais realista, parecendo que em diversas ocasiões estamos a visualizar uma espécie de documentário sem narrador. Outro ponto visual que está esteticamente alucinante são as cenas que decorrem no interior da discoteca, apesar de não serem aconselháveis a espectadores que sofram de epilepsia, são um absoluto delírio visual e sonoro. É também nesse momento que a banda sonora “explode” num género eletrónico que se adequa à técnica de filmagem. Jacques Girault e Camille Vidal-Naquet ensinam à indústria mainstream como se deve realmente filmar uma cena de dança num clube noturno.


Sauvage não é um filme para qualquer espectador. É cruel, perturbador, negro, lento e depressivo. Na minha opinião pessoal, poderia ser melhor se o argumento tentasse oferecer uma história de autossuperação, porque perante tanto drama, situações desagradáveis e de aparentes reviravoltas dramáticas, fiquei com a sensação que no fim poderia ter passado um boa mensagem. Posso referir que gostei por ser diferente do habitual, mas está longe de ser fantástico. 


Pedro Quintão
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