Saiam mais, comuniquem mais, conectem-se mais. Impeçam que Her seja uma realidade daqui a 10 anos.

Saiam mais, comuniquem mais, conectem-se mais. Impeçam que Her seja uma realidade daqui a 10 anos.

2013
Drama, Romance, Sci-Fi | 2h6min
de Spike Jonze, com Joaquin Phoenix, Amy Adams, Scarlett Johansson e Rooney Mara


Já alguma vez pararam para pensar em como é tão fácil darmos por nós a aceitar o nosso destino – e que triste destino, por vezes – sem nos preocuparmos em interagirmos com a nossa espécie? Damos por nós sozinhos no mundo e a achar que tudo é mais fácil atrás de um ecrã, quando na verdade nos estamos a enganar só a nós próprios. Muitas vezes, aquilo que nos faz falta está logo ali ao lado, mas nós recusamo-nos a perceber.

Spike Jonze traz até nós uma obra que nos faz pensar exaustivamente sobre este assunto. Daí a minha introdução. Num futuro não tão longínquo assim, Theodore Twombly (Joaquin Phoenix), tenta recuperar de uma separação, vai adiando a assinatura que ditará o seu divórcio com Catherine (Rooney Mara), e dá por si apaixonado por um Sistema Operativo (Scarlett Johansson) sofisticado ao estilo Siri. O sistema atribui a si próprio o nome de Samantha e pouco a pouco os dois apaixonam-se e embarcam numa estranha relação que tanto pertence a uma espécie de utopia, como de repente é um choque para a acordar para a realidade.

Her apresenta-se como uma crítica social cada vez mais atual e pertinente. Traz até nós um cenário futurista que não parece se quer muito distante e isso torna-se assustador. Quão difícil é querermos conexões físicas, emocionais e, sobretudo, reais como outro ser de carne e osso? Porque é que é tão ‘natural’ as pessoas afastarem-se umas das outras, criando uma espécie de fobia a partilhar momentos com outros humanos?

O guião de Jonze, que venceu o Oscar para Melhor Argumento Original em 2014, é realmente tremendo. Para além de um Universo consistente, coeso e alicerçado nas bases dos dias de hoje, transportando-as para um futuro – eu diria – distópico, oferece-nos ainda um estudo de personagens nos seus personagens principais. Aquilo que podia ser apenas um Sistema Operativo, é mais que isso. Aquilo que poderia ser apenas um homem depressivo em busca do amor, é muito mais que isso.

Joaquin Phoenix interpreta brilhantemente Theodore, um homem que é atormentado pela solidão, pelo desgosto amoroso e que não consegue sair dessa zona cinzenta. Que tem medo de não voltar a sentir nada ou no mínimo não sentir tanto como outrora sentiu. Theodore é muito mais que um escritor de cartas de amor compradas que se sente sozinho na sua vida particular. As suas centenas de camadas de narrativa são facilmente conectadas com a audiência.

Em cima disso, Samantha é mais que uma voz que faz companhia a Theodore. A interpretação de Johansson é também bastante agradável e quase sempre percebemos o que Samantha sente, mesmo nunca tendo a possibilidade de a ver. Spike Jonze está realmente de parabéns com esta sua proposta de futuro.

Tecnicamente, o filme também não perde muita qualidade. A realização é agradável, mas pouco mais que isso. Embora se perceba a visão de Jonze em todos os outros departamentos. A fotografia é compacta, bem composta e é acompanhada por belo design de produção. A forma como as cores são escolhidas e onde são situadas trazem toda uma harmonia fantástica ao quadro que nos é apresentado.

Ainda assim, o melhor aspeto técnico para mim vem sob a forma da montagem. O ritmo introduzido no filme é fantástico e tremendamente sensível. A obra desenrola-se no pace certo, nunca obstruindo a narrativa mas também nunca deixando a tensão assentar.

Resumidamente, Her é um belíssimo filme que nos deve alertar, pelo menos. Devemos pensar sobre nós, sobre os outros e sobre a relação entre duas ou mais pessoas. Saiam mais, comuniquem mais, conectem-se mais. Impeçam que Her seja uma realidade daqui a 10 anos.


por Pedro Horta