É rico no sentido em que consegue transpor para a tela a pressão social que muitos jovens sofrem hoje em dia.

É rico no sentido em que consegue transpor para a tela a pressão social que muitos jovens sofrem hoje em dia.

2018
Comédia, Drama
de Bo Burnham, com Elsie Fisher, Josh Hamilton, Emily Robinson, Jake Ryan e Daniel Zolghadri


Eighth grade, de Bo Burnham, retrata as implicações que o nosso mundo atual, eminentemente digital, tem para os jovens que transitam para a adolescência.

O filme começa com um vídeo online da nossa protagonista, Kayla (Elsie Fisher) uma jovem de 13 anos, introvertida que procura, de algum modo, conectar-se com as pessoas. Nos seus vídeos, que vão aparecendo em vários momentos do filme, conhecemos aquilo que ela gostaria de ser. Os seus conselhos são aquilo que considera correto, mas que percebemos não serem facilmente concretizáveis pela mesma, notando-se aqui uma crítica por parte do filme às imagens superficiais que recebemos, sobretudo de youtubers – tal como Kayla podem parecer seguros de si, mas na vida real o mesmo não se verifica. Kayla coloca-se numa posição de especialista nos seus vídeos, mas na verdade está a fazer uma autoanálise, tentando compreender-se a si própria.

A atriz tem uma representação genuína que aliada aos planos de câmara pensados ao pormenor, nos faz sentir empatia pela sua personagem e até que nos identifiquemos com ela em alguns momentos. A relação que tem o seu pai (Josh Hamilton) pauta os segmentos mais tristes e lindos do filme – embora a adolescente se feche no seu mundo, o pai é preocupado e tenta entendê-la e ajudá-la ao máximo para que ela não se sinta desamparada. Além destes segmentos, há uma cena em específico, onde percebemos o perigo de ser ingénua e querer a todo o custo atenção seja de quem for, vê e tira as tuas conclusões.

O enredo é sólido e faz críticas subtis à sociedade que temos hoje, onde as redes sociais e as aparências parecem valer mais que as essências. Só por levantar esta questão e fazer-nos analisar o modo como o digital influencia a vida dos jovens, já vale a pena vê-lo.

De negativo diria apenas o quão irritante foi, pelo menos para mim, perceber o quão vazia era a vida de Kayla. Muitas vezes, a personagem tornou-se irritante devido às suas escolhas e birras. Os seus objetivos e aquilo que via como fundamental para a sua felicidade eram puro cliché e sem interesse. Além disso, as camadas das personagens não foram suficientemente exploradas. Até mesmo a história familiar de Kayla não é muito abordada, por exemplo, a mãe só é mencionada no final – o que considero uma falha tendo em conta que para se entender melhor alguém, o ideal é conhecer o seu contexto.

Eighth Grade é rico no sentido em que consegue transpor para a tela a pressão social que muitos jovens sofrem hoje em dia. A necessidade de parecer bem sobrepõe-se, muitas vezes, ao estar bem e esse é um sinal ao qual devemos estar atentos. Apesar de uma visão dura e realista, o filme consegue incluir também humor e esperança.


por Rafaela Teixeira