Relevante e animado com destreza, The Breadwinner apresenta uma mistura de emoções difícil de alcançar.

Relevante e animado com destreza, The Breadwinner apresenta uma mistura de emoções difícil de alcançar.

2017
Animação, Drama
de Nora Twomey, com Saara Chaudry, Soma Chhaya, Noorin Gulamgaus, Laara Sadiq e Ali Badshah


Elevem as palavras, não a voz. É a chuva que faz as flores crescerem, não o trovão. - Parvana

Com a animação em 3D no topo da popularidade, são os filmes de animação bidimensionais que continuam cada vez mais a impressionar-me. Produções como The Secret of Kells (2011) e o mais recente Song of the Sea (2014) contam histórias visuais simplesmente fantásticas. The Breadwinner, a estreia a solo da realizadora Nora Twomey, é mais uma prova do quão vibrante e absorvente este estilo de animação consegue ser, acompanhado de uma narrativa provocante e consciente.

A autora do argumento é Anita Doron, adaptado do livro premiado da escritora Deborah Ellis, com o mesmo nome. Nesta história, somos convidados a abandonar o conforto das nossas casas e a acompanhar Parvana (voz de Saara Chaudry), uma menina de 11 anos a viver com a sua família no Afeganistão, em 2001. À data, o país estava sob o domínio dos Talibãs, o que implicava a enclausura das mulheres e compras feitas apenas por homens. 

Quando o seu pai (voz de Ali Badshah) é preso injustamente, Parvana resolve cortar o cabelo e fazer-se passar por um rapaz, de modo a conseguir alimentar a família e tentar libertar o seu pai. O que se segue é uma colisão de elementos reais com elementos fantásticos, à medida que o filme retrata a dura realidade de viver na região enquanto mulher e explora o psicológico da protagonista, através de uma fábula que começa a contar ao seu irmão mais novo.

Pode traçar-se facilmente um paralelo com o filme afegão Osama (2003), uma história no mesmo tempo e espaço, onde uma rapariga toma a mesma atitude para conseguir arranjar um trabalho e sustentar a família. Ambas as narrativas partilham uma faceta humanista, e mesmo quando o assunto é violência, The Breadwinner não se priva de mostrar um lado mais negro, com uma certa atenuação.

É tanto um recordar do passado como um alerta para o futuro, num mundo onde o Ocidente continua a viver alienado e despreocupado com as sucessivas tragédias orientais. Promove a empatia pelo outro a partir de uma história íntima e universal, que não descuida a cultura afegã, desde a música ambiente, passando pelos hábitos das famílias, até ao cenário arenoso, onde os tons castanhos predominam entre os mercados populosos e casas amontoadas.

Já na fábula de Parvana, que oferece um rico subtexto à narrativa, o imaginário mítico é colorido e expansivo. Uma forma cativante de expressar a forma como a menina interpreta o que se passa em seu redor. No final, não dá para conter as lágrimas.

Relevante e animado com destreza, The Breadwinner apresenta uma mistura de emoções difícil de alcançar. É engraçado quando deve ser, assim como partilha cenas adoráveis com outras devastadoras. Um trabalho fabuloso onde a esperança e a força de espírito desafiam as adversidades.


por Bernardo Freire