Inscreve-te e tem vantagens!

Pulp Fiction(1994)

Há um mês | Crime, Drama, | 2h34min

de Quentin Tarantino, com John Travolta, Uma Thurman, Samuel L. Jackson, Bruce Willis


PULP [pulp] n.

1. A soft, moist, shapeless mass or matter.

2. A magazine or book containing lurid subject matter and being characteristically printed on rough, unfinished paper.

American Heritage Dictionary: New College Edition

 

Bem, finalmente chegou o dia! O dia em que eu vou poder escrever uma crítica (e uma ou outra dissertação, vá) sobre aquele é que o meu filme preferido. Um dos filhos mais irreverentemente brilhantes do cinema faz vinte e cinco anos – e a Sétima Arte não poderia estar mais orgulhosa – Pulp Fiction está de parabéns! Acho importante abrir esta crítica com uma pequena nota e frisar que este se trata do meu filme preferido, sendo assim, toda e qualquer ideia ou conceção de imparcialidade que possa ter permeado as minhas outras críticas estará ausente aqui. Dito isto, vamos falar sobre o filme!

Depois de ter entrado de rompante no mundo do cinema com Reservoir Dogs (1992), Quentin Tarantino chamou a atenção de praticamente toda a gente. Dois anos depois, em 1994, todas as expectativas foram superadas com aquele que muitos (eu inclusive) consideram ser o seu melhor trabalho. Pulp Fiction não é só um filme, é o filme. Desde os lendários diálogos sobre banalidades – que revelam tudo sem dizer nada –, às impecáveis interpretações de praticamente todos os atores principais, passando ainda pelo hilariante humor negro, por cenas bizarramente geniais e pela já clássica estrutura não-linear. É um filme que marcou, e continua a marcar, gerações como poucos antes ou depois dele. É um poema audiovisual de duas horas e trinta e quatro minutos, uma ode à violência, à ficção da realidade, à estranheza banal da vida e, especialmente, ao bom cinema. É quase redundante falar bem de Pulp Fiction, e é exatamente por isso que vou fazê-lo.

Pulp Fiction é constituído por três histórias separadas que se interligam através dos vários personagens comuns a todas elas e que dão forma ao filme. A primeira retrata a vida de dois assassinos profissionais Vincent Vega (John Travolta) e Jules Windfield (Samuel L. Jackson). A segunda incide sobre a carreia de um boxer, Butch Coolidge (Bruce Willis), e o seu envolvimento com o gangster Marsellus Wallace (Ving Rhames). A terceira apresenta a tentativa de assalto de dois bandidos, Pumpkin/Ringo (Tim Roth) e Honey Bunny/Yolanda (Amanda Plummer), a um restaurante. Estas três histórias conectam-se depois através do acaso, coincidências bizarras, e alguma ironia, gerando momentos de pura violência, muito humor e situações surreais.

Ao falar sobre Pulp Fiction, e sobre o Tarantino em geral, é praticamente obrigatório referir os diálogos geniais. Os diálogos neste filme primam pelo subtexto riquíssimo que os envolve. À primeira vista, as conversas pouco ou nada têm a ver com a história ou com a situação, mas, à medida que o filme avança e vamos conhecendo melhor os personagens, torna-se cada vez mais claro o brilhantismo do subtexto inerente.

Embora todos os diálogos do filme sejam sublimes à sua maneira, vou optar por destacar aqui a maravilhosa conversa entre Vincent Vega e Mia Wallace quando estes vão jantar ao Jack Rabbit Slim’s. Mesmo não sendo necessariamente realista, o diálogo entre os dois é extremamente cativante e sedutor. Existe um sarcasmo intrínseco delicioso nas suas palavras, sarcasmo esse que realça o excecional subtexto da cena. Ambos têm sempre a resposta ideal na ponta da língua, realçando isso a sua enorme química e deixando no ar, realçada ainda mais pela dança que ocorre a seguir ao jantar, uma sugestão perigosa do que poderá vir a ser.

Ora, certo é que, por muito bons que sejam os diálogos, eles de nada valem sem personagens para os declamar. E Pulp Fiction tem algumas das personagens mais fascinantes e originais de que tenho memória. Cada personagem é construída com uma singularidade própria, com grande atenção aos detalhes e com características únicas. Além de funcionarem extremamente bem como personagens individuais, a sua dinâmica quando estão em cena juntas é ainda melhor. Realçadas, também, pelos soberbos diálogos, as longas conversas entre Vincent e Jules, por exemplo, são fascinantemente atraentes, mesmo tratando-se apenas de duas pessoas a falar. Trata-se de um filme bastante guiado pelas personagens. Muitas vezes, tão importantes como bons diálogos, são personagens que o saibam carregar, e Tarantino soube isso melhor que ninguém.

Seguindo a mesma lógica, acho também importante não deixar de referir o fantástico trabalho dos atores principais. Pulp Fiction é conhecido não só por ter ressuscitado a carreira de John Travolta e ajudado a de Bruce Willis, como por ter lançado de vez a de Samuel L. Jackson e de Uma Thurman. Todos os atores principais fazem um trabalho excecional e estão 100% investidos nos seus papéis, que desempenham com mestria. O Vincent de Travolta emana um charme e carisma que o tornam magnético e fazem com que seja, na minha opinião, a melhor personagem do filme. O Jules de Jackson irradia uma energia poderosa que impõe respeito, além de ser uma personagem hilariante com as suas observações sarcásticas. A Mia de Thurman é uma fonte de perigo iminente que faz das palavras sempre impecavelmente escolhidas a sua maior arma. Uma pequena curiosidade em relação aos atores é a participação da atriz portuguesa Maria de Medeiros como Fabienne, a namorada de Butch.

Por último, e definitivamente não menos importante, temos a banda sonora. Amplamente considerada (e com justiça) uma das melhores bandas sonoras da história do cinema, a banda sonora de Pulp Fiction conta com uma seleção irrepreensível de músicas de diferentes épocas que complementam as cenas de forma perfeita – como não adorar imediatamente os créditos iniciais ao som de Misirlou? Cada música foi escolhida a dedo para, muitas vezes, a cena ser construída com base na música. Devido a isso, todas as músicas assentam como uma luva nas diferentes cenas. Desde Dusty Springfield a Chuck Berry, passando Urge Overkill, a compilação eclética feita por Tarantino é um dos pontos fortes de um filme recheado deles.

Como qualquer paixão que valha a pena ter, não consigo explicar racionalmente o meu amor por este filme. Tudo começou em 2015 e, de lá para cá, tem sido um caso cada vez mais sério. É um filme que se torna cada vez melhor e mais interessante de cada vez que o revejo. Para quem nunca viu, ver Pulp Fiction comigo pela primeira vez é algo que não aconselho. Não me calo durante o filme inteiro, e passo todas as cenas a recitar diálogos à medida que estes acontecem, a disparar curiosidades e, muito provavelmente, a olhar para a pessoa de cinco em cinco segundos para ver se ela está a apreciar o filme como deve ser. Não consigo evitar. E porque haveria eu de evitar? Foi o filme que despertou de vez o meu interesse por cinema, o meu desejo e vontade de escrever filmes, o meu amor por bons diálogos, a minha sede de aprender mais sobre esta bela arte que, mesmo sendo a sétima, não deixa de ser a mais bonita para mim. 

Bem, poderia ficar aqui mais umas cinquenta páginas a falar sobre este filme, mas depois a crítica não caberia no site e não é para isso que não me pagam.

Pulp Fiction é o filme. É genial, bizarro, hilariante, trágico, sujo, violento e absurdamente original. Cimentou de vez a carreira de um dos cineastas mais promissores da sua geração. Deixou um legado enorme na cultura popular e continua tão relevante hoje como era há vinte e cinco anos. Vai sempre haver uma nova geração que o encontra e passa a adorá-lo. Imortalizou-se na história do cinema com uma facilidade singular. Tudo funciona, desde o guião à música, passando pelos diálogos, cenas, história, fotografia, personagens, interpretações… E sinto que escrevi esta crítica mais com o coração do que com a cabeça, mas quando o coração grita, não há razão que o ultrapasse.

Não é um filme perfeito, mas é perfeito para mim.

 

FIC·TION [fiction] n.

1. The category of literature, drama, film, or other creative work whose content is imagined and is not necessarily based on fact.

2. Narrative, explanatory material, or belief that is not true or has been imagined or fabricated.

American Heritage Dictionary: New College Edition


Filipe Lourenço
Outros críticos:
 Rafael Félix:   10
 Alexandre Costa:   10
 Raquel Lopes:   10
 Pedro Horta:   10
 Bernardo Freire:   10
 Pedro Quintão:   8
 Margarida Nabais:   10