É possível fazer-se um trabalho superior àquele que normalmente se tem visto em Portugal. Sleepwalk é uma prova disso.

É possível fazer-se um trabalho superior àquele que normalmente se tem visto em Portugal. Sleepwalk é uma prova disso.

2018
Curta, Drama
de Filipe Melo, com Greg Lucey, Durant Mcleod e Joy Green


Filipe Melo compõe. Filipe Melo escreve. Filipe Melo toca. Filipe Melo realiza. E tenho a certeza que Filipe Melo também deve fazer umas torradas do camandro, porque já foi laureado em tantas frentes que só falta mesmo os seus talentos na arte culinária virem ao de cima.

Premiado com o Prémio Sophia para Melhor Curta-Metragem, Sleepwalk é o mais recente trabalho de Filipe Melo, sendo baseado na banda desenhada Comer/Beber, do mesmo autor do filme em colaboração com Juan Cavia. Não é a qualidade da BD que aqui está a ser avaliada, mas se estivesse, não se saia nada mal, e é muito devido a essa mesma qualidade que talvez o filme resulte como resulta. Muitas das vinhetas foram totalmente transpostas para o ecrã, e é um trabalho incrível. Mas estou-me a adiantar.

Colocando a história em termos simples, é a jornada de um homem através dos Estados Unidos à procura de uma fatia de tarte muito muito específica. Quem nunca, não é verdade?

Não há muito tempo estava a ter uma conversa com um dos elementos do CC, e concordamos que o cinema português tem uma vibe própria no que toca ao seu aspeto. Não é bonito, por razões que não consigo propriamente apontar, mas não é bonito e não é de todo apelativo à minha tão sensível retina. Mas bem-dito seja Deus, afinal há esperança.

Sleepwalk tem um ar tão Irmãos Coen na sua cor e nos seus cenários que a partir do primeiro frame já tinha captado o meu interesse. Somamos a isto aquelas cordas com um cheirinho a western, também compostas por Melo (mal seria se assim não fosse), e já tinha quase todos os ingredientes que precisava de ter para, no mínimo, me deixar com uma experiência interessante. E ainda só tinham passado dois minutos dos quinze que compõem a curta, e quando tanto de um filme depende da sua abertura, Sleepwalk não podia ter começado melhor. 

E ainda consegue oferecer uma história interessante e eficaz. E mais importante que isso, contada com imagens, e não com falas que apenas servem para informar quem está do lado de lá do ecrã. Nota-se que o argumento não se encontra minimamente preocupado em explicar o que quer que seja ao espetador, apenas mostra o que tem de mostrar de uma forma completamente natural e sem linhas de diálogo desnecessárias e deixa a coisa fluir sem grandes preocupações ou dramatismos, o que acaba por tornar esta narrativa, que não é de todo previsível, muito mais emotiva do que aquilo que seria se tudo fosse cuspido em forma de diálogo.

É interessante que Sleepwalk tenha consigo marcar todas as minhas checkboxes de forma impecável quando eu sei que sou insuportavelmente picuinhas com algumas coisas e tenho alguma dificuldade em apreciar “cinema tuga” no geral (ainda que o elenco seja composto por americanos). Isto agora um pouco a título pessoal, é até inspirador para malta como eu, que quer fazer disto vida um dia, ver que é possível fazer-se trabalho de um calibre superior àquele que normalmente se tem visto do cinema português, e digo isto com algum pesar. Mas há esperança, Sleepwalk é uma prova disso.


por Rafael Félix