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Escape from Pretoria(2020)

Há 20 dias | Thriller, | 1h41min

de Francis Annan, com Daniel Radcliffe, Daniel Webber, Mark Leonard Winter, Ian Hart, Nathan Page e Paul Harvey


Frequentemente ouvimos falar sobre atores que são única e exclusivamente associados a uma personagem icónica que fizeram e são raros os que gostam de terem esse rótulo. Naturalmente que Johnny Deep será sempre associado a Jack Sparrow, da mesma forma que Daniel Radcliffe será sempre ao pequeno feiticeiro Harry Potter. Estes são dois dos vários exemplos, mas são talvez os dois que mais se tentam desassociar às suas personagens.

Em especial foco em Daniel Radcliffe que, desde que estreou Harry Potter and the Deathly Hallows: Part 2 (2011), tem vindo a manter a sua declaração de que não só não pretende – embora não descarte totalmente – regressar à personagem, como prefere estrelar em produções independentes onde possa explorar outras ramificações, completamente diferentes, do seu acting.

E a verdade é que ao longo desta última (quase) década – sim, porque Harry Potter já terminou há quase 10 anos – Radcliffe tem participado frequentemente em obras mais fora da vertente mainstream como são exemplos The Woman in Black (2012), Horns (2013), Imperium (2016), Swiss Army Man (2016), Jungle (2017) ou, o mais recente e ótimo, Guns Akimbo (2020). E em todos estes exemplos pegamos num Daniel Radcliffe completamente novo e, honestamente, cada vez melhor.

Em Escape from Pretoria, Radcliffe coloca-se com um sotaque sul-africano e interpreta, numa história verídica, Tim Jenkin, um anti-apartheid que foi preso em 1978, juntamente com Stephen Lee (Daniel Webber), por estar a lutar contra todo aquele racismo e escravidão. Jenkin e Lee são encarcerados em Pretoria, com o imediato pensamento de escapar. Denis Goldberg (Ian Hart), um presidiário há muito lá, avisa Jenkin que muitos tentaram, mas nenhum conseguiu, mas Leonard (Mark Leonard Winter) está disposto a alinhar nesta loucura.

A história é verídica, como já disse, e um tanto ou quanto descabida. Mas a verdade é que foi mesmo assim que aconteceu e Jenkin teve muita sorte a seu favor. Mas perguntam-se vocês: Os três escapam? Bem, isso não vos vou dizer, perderia a piada. Posso, no entanto, dizer-vos como é que tentaram esta loucura. Jenkin teve a brilhante ideia de esculpir as chaves de todas as portas da prisão, em madeira. Não malta, não estou a gozar. Desde a porta da cela – que era dupla – até à porta de saída do estabelecimento prisional, todas as chaves foram copiadas em madeira.

O meu grande problema são os primeiros 45 minutos da longa-metragem. Tem um pace demasiado lento, que se arrasta eternamente, e nada disto ajuda ao facto dos nossos protagonistas não terem qualquer tipo de obstáculos durante esta primeira metade do filme. À exceção do guarda prisional bizarramente desconfiado que faz lembrar, mas não chega aos calcanhares de Brad em Prison Break (2005-2017) e acaba por nunca ver a caravana a passar, Jenkin, Lee e Leonard fazem muito daquilo que lhes apetece.

E isto cria aqui um problema enorme. Que é o facto de tanto podermos estar a assistir a um filme, como a assistir a uma compilação de vídeos de Daniel Radcliffe a esculpir chaves de madeira. Porque a grande maioria do filme é precisamente isso. É o roubar madeira, o decorar das chaves dos guardas, o tentar criar uma cópia idêntica, experimentar, limar e experimentar novamente.

E isto deixa-me meramente entristecido, porque me impede de olhar para Escape from Pretoria com os olhos que eu queria olhar. Porque a segunda metade do filme sobe notoriamente de nível e ainda culmina num clímax muito bom, ao som de coros e cânticos religiosos. Uma segunda metade com muitos obstáculos, muitos riscos e quase tudo a falhar por meros pormenores. É nesta altura em que vemos o nosso protagonista tentar de tudo para não ser apanhado e é isso que se pedia desde o início.

Outro aspeto negativo é a considerável falta de desenvolvimento de personagens. Todos os intervenientes desta história, à exceção de Tim Jenkins, apresentam-se o suficiente interessantes para não nos obrigar a parar de assistir. São é levados ao colo por uma ótima realização de Francis Annan que é capaz de nos oferecer muita tensão e companheirismo.

Resumidamente, foi giro ver Harry Potter a homenagear a fuga de Sirius Black de Azkaban, ou ver Daniel Radcliffe a fazer chaves de madeira. Fora de brincadeiras, Escape from Pretoria podia e merecia ter sido mais que apenas isto: um filme banal sobre uma fuga de uma prisão que tanto peso teve para a História da África do Sul.


Pedro Horta
Outros críticos:
 Alexandre Costa:   6