Pode não ser o melhor filme de Steve McQueen, mas é o mais acessível ao mercado mainstream, mantendo ainda a sua matriz de temas e qualidade.

Pode não ser o melhor filme de Steve McQueen, mas é o mais acessível ao mercado mainstream, mantendo ainda a sua matriz de temas e qualidade.

2018
Drama, Crime, Thriller | 2h9min
de Steve McQueen, com Viola Davis, Elizabeth Debicki, Michelle Rodriguéz, Liam Neeson, Colin Ferrel, Daniel Kaluuya, Robert Duvall, Jon Bernthal, Cynthia Erivo e Brian Tyree Henry


Para os mais desatentos, Steve McQueen ficou conhecido em 2015 com 12 Years A Slave, que acabou por vencer, com toda a justiça, o Óscar da Academia para Melhor Filme. Mas para quem anda de olho aberto para as grandes promessas na área da realização, McQueen não era de todo um estranho. Antes do seu primeiro Óscar, tinha já no currículo os seus trabalhos em Hunger (2008) e Shame (2011), dois filmes absolutamente incríveis e merecedores de múltiplas visualizações. Embora todas estas longas-metragens sejam profundamente diferentes umas das outras a nível de temas, partilham todas uma caraterística: são character-studies. Steve McQueen, como ninguém, sabe apresentar e focar uma personagem peculiar e disseca-la ate ao mais ínfimo pormenor. Parece fácil, mas não é. Dito isto, este é o filme do realizador inglês que mais se afasta desta fórmula.

Widows baseia-se na série da televisão britânica dos anos 80 do mesmo nome, embora Gyllian Flynn, conhecido argumentista de Gone Girl (2014) e Sharp Objects (2018-), e Steve McQueen tenham promovido diversas alterações ao guião da série original, desde a localização, passado das personagens e até o objetivo da narrativa.

A premissa é a seguinte: Henry Rawlins (Liam Neeson) e a sua equipa fazem um assalto, um trabalho habitual para o grupo. No entanto, algo corre tragicamente mal e os homens são abatidos pela polícia e o dinheiro perdido. Este dinheiro, pertencia a Jamal Mannings (Bryan Tyree Henry), um dos reis do crime de Chicago. Não podendo deixar tal evento passar incólume, Jamal vira-se para Veronica (Viola Davis), a viúva de Henry, e dá-lhe um prazo para devolver o dinheiro ou irá sofrer as consequências, tal como o seu esposo teria. Esta, sem qualquer tipo de experiência no meio do marido, contacta as viúvas dos outros elementos da equipa de Henry, de forma a concluir um assalto e recuperar o dinheiro para pagar a Mannings.

Olhando para esta premissa, o que esperamos? Um thriller cheio de ação, explosões, tiroteios, perseguições a alta velocidade, mais tiros e uma eventual bazuca para o clímax. Mas estamos a falar de Steve McQueen, e Steve McQueen significa personagens. Sim, eu disse que este filme não era um character-study, mas não deixa de explorar cada uma das suas muitas personagens, deixando quase como som de fundo durante uma boa parte do filme, a parte literal do assalto. Através destas personagens, o realizador tenta tocar numa panóplia de temas, desde perda, legado, racismo, misoginia, e muitos outros.

E talvez esteja aqui o grande defeito deste filme, e um nada habitual em McQueen: falta foco ao guião. A história tenta fazer tantas coisas que acaba por abandonar temas e plot-lines várias vezes, ou então resolve-as de uma forma apressada e desleixada, recorrendo demasiadas vezes a conveniências estúpidas ou resoluções que dependem da “burrice” das personagens.

Felizmente, o guião resulta muito bem noutras alturas, em parte compensando as alturas mais fracas. Existe um tema recorrente no filme: praticamente todas as mulheres presentes foram vítimas de algum abuso feito por homens. Muita da mensagem do filme assenta na viagem que estas personagens fazem a caminho da superação destes mesmos tratos, um claro grito de empoderamento feminino num género que tantas vezes é dominado por homens.

E claro, os temas de racismo estão presentes. Existe toda uma trama política entre Jamal Mannings e a personagem de Colin Farrell que por vezes se encontra com a linha narrativa do assalto, mas é tão interessante como ela exatamente pela forma como é exposto o conflito racial nas ruas (e na política) de Chicago e como está tão intrinsecamente ligada com o crime e também a igreja. OK, é uma obra ficcional, mas vão-me dizer que acham sinceramente que esta trama anda longe da realidade?

Em todos os níveis técnicos, Steve McQueen não conhece o falhanço. A música composta por Hans Zimmer é um elemento chave para manter a atmosfera do filme tensa o suficiente, mas nunca ao ponto de parecer manipulativa ou repetitiva. A fotografia, como em todos os filmes anteriores de McQueen é feita por Sean Bobbit (embora com muita influência do realizador) e como sempre, absolutamente incrível, arranjando sempre formas criativas de filmar algumas cenas que normalmente são fotografadas de forma quase padrão (tenham especial atenção a uma mera conversa num carro).

Um elenco cheio de estrelas, em que todas elas brilham ao mais alto nível, mas vou dar o meu especial apreço a Daniel Kaluuya e a Elizabeth Debicki. O primeiro protagoniza o primo de Jamal, um fixer se lhe quisermos assim chamar, que consegue ser absolutamente aterrador com uma presença que preenche toda a tela. Já Debicki protagoniza Alice, uma das viúvas que se juntam a Veronica Rawllins, uma filha de emigrantes que foi maltratada por homens e pela mãe a vida inteira, e tem o arco narrativo mais interessante de toda a história, e a minha performance de Atriz Secundária preferida de 2018.

Fazendo as contas, este pode não ser o melhor filme de Steve McQueen, mas é sem dúvida o mais acessível ao mercado mainstream, mantendo ainda a sua matriz de temas e padrões de qualidade. E se é assim que Steve McQueen faz um filme mais “simples”, por mim venham mais.


por Rafael Félix