Parte drama, parte thriller, a narrativa do filme é um verdadeiro terror para quem está numa relação duradoura.

Parte drama, parte thriller, a narrativa do filme é um verdadeiro terror para quem está numa relação duradoura.

1987
Drama, Thriller | 1h59min
de Adrian Lyne, com Michael Douglas, Glenn Close, Anne Archer, Ellen Latzen e Stuart Pankin


Filmes que lidam com questões basilares como a família e relações extraconjugais vão inevitavelmente provocar reações intensas e uma cota-parte de narcisismo. Fatal Attraction do realizador Adrian Lyne enquadra-se na descrição anterior, uma vez que convida o espetador a projetar a sua experiência à medida que vemos desenrolar no ecrã esta história sobre adultério, ciúme e obsessão.

 

Com um argumento de James Dearden, baseado no filme Diversion (1980), que o próprio realizou e escreveu, Fatal Attraction é a simples história do bem-sucedido homem de família Dan Gallagher (Michael Douglas) que tem um curto mas intenso caso com a sua colega de trabalho, Alex (Glenn Close). Depois de se aperceber da dimensão do seu erro, Dan tenta livrar-se da encruzilhada onde se metera. Mas Alex não está de todo interessada em deixar o seu amante regressar em paz para a sua família.

 

Parte drama, parte thriller, a narrativa do filme é um verdadeiro terror para quem está numa relação duradoura. Apesar de uma boa fração das pessoas nunca ter traído, muitos de nós já fantasiámos sobre o assunto, mesmo sem termos intenções de concretizar os pensamentos. A lição aqui é ficarmos quietinhos, pois além de ser moralmente incorreto, nunca sabemos o que esperar dos dias seguintes.

 

No caso de Dan esperavam-lhe dias atribulados. A automutilação de Alex ainda no primeiro ato revelou que estava perante uma mulher que não olhava a meios para atingir os seus fins. O comportamento obsessivo começa por telefonemas constantes, até que acaba por tornar a vida de Dan num autêntico inferno, ao estilo do thriller Play Misty for Me (1971), realizado por Clint Eastwood.

 

Mas sendo Fatal Attraction um produto do seu tempo, será o comportamento de Alex assim tão inválido? Colocando de parte os extremismos dramáticos da história, não terá Alex direito a mais do que ser usada por uma ou duas noites? A década de 80 foi também marcada pela reivindicação da mulher neste aspeto, o que torna acinzentado um filme que à primeira vista é preto e branco.

 

A história é cativante e tem alguns momentos que se demarcam. Principalmente devido às performances do elenco. A atriz Anne Archer, enquanto esposa de Dan, encarna uma personagem tão amável que a última coisa que queremos é vê-la ser magoada. Douglas é autêntico durante todo o filme (como já é habitual), conseguindo transmitir simpatia mesmo depois da traição. Mas parte da simpatia advém da impactante atuação de Glenn Close, que vestida sempre de preto ou branco (uma homenagem à atriz Lana Turner no film-noir The Postman Always Rings Twice (1946)) escala a sua personagem até à completa loucura, conquistando um lugar de destaque no reino das psicopatas mais adoradas do cinema.

 

É um ótimo trabalho de realização por parte Adrian Lyne que em conjunto com James Dearden e a montagem de Peter E. Berger e Michael Kahn consagraram Fatal Attraction com 6 nomeações nos Óscares em 1988. A composição musical de Maurice Jarre e a direção de fotografia por parte de Howard Atherton podem não ser objetos de destaque, mas em altura alguma comprometem o filme. Um filme que está mais perto da verdade do que muitos de nós gostamos de admitir.


por Bernardo Freire