Inscreve-te e tem vantagens!

Parasite (2019)

Há 10 meses | Drama, | 2h12min

de Bong Joon-ho, com Kang-ho Song, Sun-kyun Lee, Yeo-Jeong Cho e Ki-woo


O primeiro filme de origem sul-coreana a vencer a Palme d’Or no Festival de Cannes, Gisaengchung, ou Parasite em inglês, é o mais recente filme de Bong Joon-ho, realizador dos aclamados Okja (2017) ou Memories of a Murder (2007). Num ano em que a sua concorrência tinha filmes como Once Upon a Time…In Hollywood (2019) de Quentin Tarantino (que não tive oportunidade de ver), Sorry We Missed You (2019) mais um trabalho incrível de Ken Loach, ou a gigantesca surpresa que foi Portrait of a Lady on Fire (2019) de Céline Sciamma, fica sempre a questão: foi um justo vencedor? Bem, os meus gritinhos estridentes quando o nome de Bong Joon-Ho foi chamado, provavelmente respondem a essa pergunta.

Depois dos seus últimos dois filmes contarem com elenco e co-produção americana, o realizador volta a colaborar com Song Kang-ho e com um grupo de atores completamente sul-coreano, em provavelmente o seu melhor trabalho da carreira. Respeitando o pedido de Bong, vou manter a sinopse o mais vaga possível: uma família desempregada e de classe-baixa, mas com um talento infindável para a arte da mentira, ganha um certo interesse pela família Park, que está nas antípodas da primeira, sendo dotada de tanto dinheiro como de ingenuidade. Lentamente os “aldrabões”, começam a infiltrar-se na vida quotidiana dos Park, para resultados que têm tanto de hilariantes como de chocantes.

First things first, este filme pede um ecrã o maior ecrã possível, para uma experiência cinematográfica completa. Isto porque Parasite toma partido de todas as possibilidades que a Sétima Arte lhe dá, para oferecer duas horas e doze minutos de puro êxtase. Desde a fotografia dinâmica e criativa, o uso de música clássica como só os coreanos a sabem usar ou a forma como o filme está montado, cada um dos aspetos técnicos funciona em harmonia com a escrita do guião e das performances de um elenco extraordinário, vincando totalmente a extraordinária realização de Bong Joon-ho a cada frame que nos passa nos olhos.

Também é verdade que o elemento chave dos filmes do realizador, é também o elemento que me torna difícil apreciar totalmente os seus filmes, que é o cruzamento de géneros e mudanças de tom constantes do filme, normalmente variando entre a comédia e o thriller, acabando por fazer-me perder a seriedade das partes dramáticas, visto que as partes mais cómicas tendem a resultar demasiado bem, por muito estranho que pareça. Até isto foi ultrapassado desta vez, porque se é verdade que o filme tem alturas inegavelmente hilariantes, também é verdade que quando são dadas umas pinceladas de thriller e até um cheirinho a terror, tudo se mistura perfeitamente e de forma completamente orgânica.

Isto será um misto da qualidade absurda do elenco, mas também de um guião que além de conseguir misturar uma multitude de géneros e emoções, ainda arranja forma de espelhar os contrastes entre a alta sociedade e a classe baixa, uma balança tão desequilibrada que promete fazer rir histericamente, ou chorar copiosamente em desespero. De certa forma, podem ser feitas algumas comparações a Us (2019), embora o calibre da realização seja ainda impensável a Jordan Peele, existem muitos temas e tons que são comuns aos dois filmes.

Depois da batalha entre Netflix e o Festival sobre Okja, banindo futuros filmes da gigante do streaming de competir, este é o regresso triunfante de Bong a França, tal D. Sebastião numa noite de nevoeiro. Parasite encapsula em duas horas e doze minutos, tudo aquilo que o cinema tem potencial para ser. Uma experiência para os sentidos e para o coração, o trabalho de um mestre, e a pièce de résistance da carreira de Bong Joon-ho. Houve literalmente uma salva de palmas A MEIO do filme, e uma ovação triunfante durante os créditos finais, a prova máxima que Cannes deu ao realizador sul-coreano, que aquilo que ali tinha entregue, era na verdade uma obra-prima. 


Rafael Félix
Outros críticos:
 Alexandre Costa:   10
 Raquel Lopes:   9
 Pedro Horta:   9
 Margarida Nabais:   9
 Bernardo Freire:   10