É ousado e não visto muitas vezes em Portugal, mas tem um elenco desnecessário, momentos caídos do céu e uma história confusa e incoerente.

É ousado e não visto muitas vezes em Portugal, mas tem um elenco desnecessário, momentos caídos do céu e uma história confusa e incoerente.

2018
Ação, Comédia, Thriller | 2h12min
de Sérgio Graciano e Manuel Pureza, com José Raposo, Gabriela Barros, Catarina Furtado, José Fidalgo, José Mata, Marina Mota e Dinarte Branco.


O mais recente filme português nos cinemas chama-se Linhas de Sangue e é co-realizado entre Sérgio Graciano e Manuel Pureza. Graciano é um dos realizadores portugueses mais ativo desta época, ainda que os seus resultados finais tragam sempre mais defeitos que qualidades, como é o caso em Perdidos (2017), por exemplo, onde a sua realização é o único ponto aproveitável. Já Pureza estreia-se em longas-metragens depois de passar por novelas, séries televisivas e curtas-metragens.

E Linhas de Sangue surge, precisamente, de uma curta-metragem (de ambos) que foi lançada em 2011. Com o mesmo nome, o mesmo elenco e muito menos duração, a curta não foi tão bem recebida quanto isso, o que não a impediu de ser uma pequena rampa de lançamento para a longa-metragem que agora estreia.

Linhas de Sangue tem tido um trabalho publicitário tremendo e é difícil encontrar alguém que ainda não tenha ouvido falar. A juntar a isso, é um filme com uma ideia pioneira em Portugal: Nos seus primeiros três dias de lançamento, em alguns cinemas apenas, é dada a possibilidade a quem compra o bilhete para assistir de escolher o final da história. São-nos dadas duas opções e a mais votada pela sala em questão, é o final exibido. Mas valerá a pena? Será desta que o cinema português atirou em cheio?

A história que nos é contada é que existe uma fação que pretende chacinar Portugal e é necessário agir. Manuel Chança (José Raposo), uma velha glória de uma força especial portuguesa, acaba por reunir vários heróis para formar uma frente de defesa nacional para acabar não só com o plano, mas com o cabecilha: o Chanceler (Alfredo Brito).

O filme é dividido em vários segmentos de apresentação. Passamos o filme a conhecer personagens e personagens, nos seus dia-a-dias, até serem recrutados para o desafio final. E é logo aqui que me divido. O ritmo da narrativa perde-se por completo com estes segmentos. Perde-se o fio condutor da história principal. E, embora os segmentos sejam agradáveis (distintamente), são prejudiciais ao que realmente deveria interessar, o que torna a narrativa desorganizada, esquecível e, por consequência, má. Linhas de Sangue poderia ter sido transformado numa série televisiva e a experiência e qualidade seriam outras.

Com um elenco estupidamente extenso e desnecessário, Linhas de Sangue tem aqui ou ali personagens interessantes e que nos captam a atenção, mas acaba por se perder por completo por ter um número imenso de atores que nada acrescentam ao filme e estão lá para poderem vender o produto, através das suas imagens. Temos vários casos: Lourenço Ortigão, Kelly Bailey ou o YouTuber Wuant são alguns nomes que se destacam neste parâmetro. O tempo de filme que têm é curtíssimo. Wuant acaba ainda por ter uma cena propositada que nada acrescenta ao filme e ainda desliga mais a plateia, apenas para que se possa inserir no trailer e, consequentemente, vender a outros públicos. O que aqui nem faz sentido, uma vez que o filme é para maiores de 16 e o público de Wuant é, na grande maioria, mais jovem.

Quero, ainda assim, destacar José Raposo, Tiago Teotónio Pereira e, surpreendentemente, Catarina Furtado. São os nomes que mais alegram com as suas performances. Num elenco anunciado de 54 nomes – sim, 54 –, tornou-se fácil o destaque, uma vez que 98% do elenco não passa de participações especiais. Existem – vejam lá vocês bem – personagens que fazem parte do cartaz principal e que aparecem nos primeiros cinco minutos de filme e nos dois minutos finais.

Confesso que me ri com bastante frequência na primeira metade do filme, mas sou capaz de me ter perguntado sobre qual o género do filme, mais vezes. Linhas de Sangue oscila tanto de comédia para ação, como de ação para drama, como de drama para sabe-se lá mais o quê.

A realização é o maior destaque do filme e é realmente boa. A câmara lê cada cena e personagem ao pormenor e ajuda o engolir da história, ainda que esteja saturada de referências e referências bastante diretas.

Por fim, a escolha dos finais foi um descalabro autêntico. O filme para, literalmente, para que o público escolha uma das duas opções. Mas a paragem é demasiado grande e vem cortar um ritmo que estava preso por um fio há muitas cenas. Além disso – e naturalmente só poderei falar do final que me foi dado –, o fim de Linhas de Sangue é absurdo, irrealista, desnecessário e capaz de estragar a experiência, mesmo que o filme fosse uma obra de arte.

Carregado de referências, de elenco desnecessário, de momentos caídos do céu, com uma história confusa e incoerente, ainda que alguns bons momentos de comédia, Linhas de Sangue não sai do mediano. Tem estrutura de série televisiva e, nesse formato, teria ligeiramente mais sucesso. Sérgio Graciano (com Manuel Pureza) volta a destacar-se mas cada vez mais me pergunto se escolhe filmes mediano-maus propositadamente para que ele possa ser, então, a estrela.

Não recomendo nem deixo de recomendar a vossa ida ao cinema, para ver este filme. É ousado e não visto muitas vezes em Portugal e isso tem de valer alguma coisa. É uma experiência, digamos, diferente. Sei que não foi uma entrada com o pé direito, mas estou na dúvida se foi com o esquerdo. Entrada porque o cinema português tem mais dois filmes preparados para nós ainda este ano: Bad Investigate, de Luís Ismael, e Pedro e Inês, de António Ferreira.


por Pedro Horta