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Bacurau(2019)

Há um mês | Ação, Aventura, Mistério, | 2h12min

De Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho, com Bárbara Colen, Thomas Aquino, Sônia Braga e Udo Kier


Não fosse o calor humano, o sentido de comunidade e a crítica política pontiaguda tão presentes em Bacurau, seria estranho pensar que o filme foi co-assinado pelo realizador e argumentista brasileiro Kleber Mendonça Filho. Isto, claro, a julgar pelo maior êxito da sua carreira, o fenomenal Aquarius (2016), que voltou a fazer justiça aos talentos da atriz Sônia Braga. No seu mais recente projeto, em parceria com o realizador e argumentista Juliano Dornelles, Kleber inova em género e em forma, num projeto que conjuga ação, mistério e ficção científica com a sensibilidade de um western.

Num futuro não muito distante, no Brasil, uma aldeia fictícia chamada Bacurau (que é também o nome de uma ave noturna), desaparece subitamente dos mapas e perde o contacto com o mundo. Uma das anciãs mais antigas e respeitadas da aldeia acabara de falecer e a comida e água estão escassas. Como se não bastasse, a certo ponto, estranhos homicídios começam a ocorrer à volta da pequena região e tomam-se medidas preventivas.

Parte do aproveitamento e loucura do filme vem de não se saber tudo de antemão, e por isso, fico-me por aqui na descrição. O ponto de entrada da narrativa é Teresa (Bárbara Colen), uma neta da anciã recém falecida, que traz consigo o que viria a ser um dos últimos tanques de água. Ela transmite sensatez e preocupação apenas com o olhar, algo que o seu namorado, Pacote (Thomas Aquino), um ex-gangster, demonstra com mais paixão. Mas estes são apenas dois piões num vasto elenco que conta com Silvero Pereira, Udo Kier, Sônia Braga e muitos outros. Um coletivo longo que contribui para o caráter inesperado da história e refletem mais uma vez uma parcela da cultura brasileira.

Frente a frente com Aquarius, a regressão é inevitável. Particularmente na forma como arrasta algumas cenas e demora a criar um fio condutor para a história. No entanto, os realizadores conseguem algo bastante interessante: Esquentar o cinema de género brasileiro evocando uma tremenda apreciação pelo modo de filmar americano. No terceiro ato, por exemplo, algumas sequências adquirem até um gosto de Tarantino, no modo como a violência é executada e as expetativas são subvertidas.

No que diz respeito ao argumento, Bacarau teve origem em 2009, sendo que só entrou nos estágios finais 3 anos antes de estrear. Contudo, o tempo que passou apenas acrescentou relevância sócio-política ao filme, dada a corrupção e instabilidade governamental que se sentiu e ainda assola o país. Pode facilmente ser interpretado como uma história para alertar o facto do presidente Bolsonaro querer afastar os indígenas do seu ambiente em troca de lucros empresariais, ou ainda a ameaça à privacidade que um mundo cada vez mais tecnológico pode implicar.


Bernardo Freire
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