Oferece um novo arranjo à história clássica do escritor inglês e até consegue entreter numa noite fria de inverno.

Oferece um novo arranjo à história clássica do escritor inglês e até consegue entreter numa noite fria de inverno.

2009
Biografia, Comédia, Drama | 1h44min
de Bharat Nalluri, com Dan Stevens, Christopher Plummer, Jonathan Pryce e Morfydd Clark


Que mais podemos acrescentar a uma das obras mais adaptadas de sempre? É essa a questão que o realizador Bharat Nalluri e a argumentista Susan Coyne procuram responder com a biografia The Man Who Invented Christmas. Baseado na história da escritora Les Standiford, que por sua vez foi inspirada pela novela literária de Charles Dickens, A Christmas Carol (1843), o filme explora o processo criativo do autor numa altura particularmente difícil da sua vida, à medida que integra na sua história frações do legado que deixou na época natalícia.

Estamos em 1843 e o celebrado escritor Charles Dickens (Dan Stevens) está num ponto baixo da sua carreira. Além de ter redigido três falhanços, Charles acumula dívidas em casa e está a sofrer de um bloqueio de criatividade. Num golpe de esperança, o autor procura escrever uma história de natal e autopublica-la em menos de 2 meses. A chegada inesperada dos seus pais não ajuda à causa, mas aos poucos Charles começa a criar personagens e a imaginar conversas que fluem em confrontos com o seu passado. O prazo aperta, e há uma história por escrever.

No âmbito das conversas com as personagens, o destaque vai facilmente para as interações com Scrooge (Christopher Plummer), que representa a elite londrina da época. A mesquinhice da personagem ajuda Charles a enfrentar os seus próprios fantasmas e consequentemente a evoluir enquanto escritor. Os fantasmas estão fundamentalmente relacionados com o seu pai, muito bem interpretado por Jonathan Pryce. Esta dinâmica acrescenta o contexto necessário para o núcleo da narrativa. Se bem que o filme toma algumas liberdades. Acaba por ser uma biografia solta.

O próprio título do filme é um pouco traiçoeiro porque o natal já existia previamente à obra. O que A Christmas Carol fez foi reformular os valores da quadra, dando ênfase à caridade e ao bem-estar comum entre os entes queridos. Princípios que apesar de se manterem estão longe de prevalecer sobre os ideais capitalistas vigentes.

E se isto não é uma crítica direta ao filme, a falta de magia com que o realizador encara a história não pode deixar de ser. A forma como é disposto o processo criativo de Charles é absolutamente desajeitado, não deixando nenhuma nota de mistério no ar. Decerto que há mais por detrás desta criação do que visões das futuras personagens.

Quanto à produção, se colocarmos de parte a iluminação atroz de algumas cenas e o excesso de higiene das ruas para a época, os cenários estão muito bem compostos e pormenorizados. Para não falar de um guarda-roupa requintado.

The Man Who Invented Christmas oferece um novo arranjo à história clássica do escritor inglês, e apesar da execução pouco eficiente, até consegue entreter numa noite fria de inverno. Acaba por ser um filme inofensivo e bem-intencionado, ficando aquém da grandeza da obra que procura examinar.


por Bernardo Freire