O suspense e o mistério mantêm-se do início ao fim, prendendo a nossa atenção. Além disso, a tensão está sempre presente

O suspense e o mistério mantêm-se do início ao fim, prendendo a nossa atenção. Além disso, a tensão está sempre presente

2018
Terror, Mistério, Thriller | 1h34min
de Daniel Goldhaber, com Madeline Brewer, Patch Darragh, Melora Walters, Devin Druid e Imani Hakim


Cam, do estreante realizador Daniel Goldhaber, encontra-se disponível na Netflix e está a dar que falar – pela sua realização e por ser bizarro ao mesmo tempo que é realista. A possibilidade que a história traz é assustadora –  pode acontecer a qualquer pessoa.

Alice (Madeline Brewer) tem uma vida dupla. No mundo real, contacta com o irmão (Devin Druid) e a mãe (Melora Walters), mas no mundo virtual, torna-se “Lola”, aumentando os seus contactos. Enquanto camgirl, não se limita a divertir-se e a entreter o seu público, ela é ambiciosa, deseja chegar ao topo do site onde trabalha e faz de tudo para o conseguir, até mesmo falsos suicídios. Um dia acorda e percebe que perdeu acesso à sua conta, mas que continua online, em direto. Num primeiro momento pensa que estão a ser passados vídeos antigos, pois, a rapariga que se encontra em direto na sua conta é igualzinha a ela. O mistério mantém-se e Alice vê-se a ela própria a alcançar o seu objetivo, mas, de facto, não sendo ela..

O argumento de Isa Mazzei é interessante e apela à reflexão. Mergulha no universo das modelos de webcam, focando-se no ponto de vista de uma delas. O estilo vai ao encontro do da série Black Mirror (2011 -) – o que é irónico porque a protagonista já participou na série. Refletimos sobre um problema tecnológico que está cada vez mais próximo de nós: o hackeamento de contas e roubo de identidades. Além disso, outros diversos temas atuais relevantes, como o preconceito, a banalização da violência e o bullying virtual são subtilmente introduzidos.

O suspense e o mistério mantêm-se do início ao fim, prendendo a nossa atenção. Além disso, a tensão está sempre presente – especialmente devido ao tique da protagonista que está sempre a roer as unhas. A atuação da mesma é consistente, criando empatia com o público. Não descansamos até perceber o que aconteceu e torcemos por ela.

A estética do filme é fantástica. Existe uma atenção nos detalhes dos cenários carregados de luzes neon. A criação de um ambiente sinistro é bem conseguida. Além disso, Goldhaber opta, a meu ver, acertadamente, por não criar um filme meramente focado na tela do computador.

O último ato é confuso e termina com um desfecho desanimador. Fica muita coisa por explicar. Além disso, o arco da personagem não é bem desenvolvido, não sabemos muito da vida da protagonista, nem sentimos uma evolução da mesma. Sabemos que é ambiciosa e é obcecada por atingir o topo, quando isso lhe é retirado, transporta essa obsessão para descobrir o que aconteceu com a sua conta.

Cam é complexo, não dá respostas, mas coloca perguntas e alerta para um problema associado ao desenvolvimento da tecnologia. Foge dos clichés do terror, mas o estranho acaba facilmente por se tornar assustador. 


por Rafaela Teixeira